quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Crônica para muito além do Alentejo VII

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E depois do alvoroço como do cardume desorientar a rota. Encosta a boca em meu ombro. Revira o rosto para o pescoço. Fecha os olhos e finge ser de verdade. Parece homem essa tempestade. Há uma santa que protege os pesqueiros. Uma mulher paciente e vaidosa. Se pudesse ela interceder e com sua fé me revestisse seria dela a peça de tecido azul. E de cochicho lhe diria que tanto ardor seria de mais valia como amor.

Karinne Santiago

Crônica para muito além do Alentejo VI

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Vasculho seu peito ou devo dizer diário de bordo? Cartas, coordenadas, mapas. Esta coisa que ata meu coração contra o seu assombro de pedras a receber as ondas. Essa força de idas e vindas que me amedronta e excita. Parece que afundo diante do seu corpo com uma âncora presa entre palavras bonitas e gemidos. Há um paraíso perdido. Uma terra virgem e desconhecida com figuras míticas. É este sabor de maresia que nos antecipa. A carranca afasta agouros. Vai fiel abrir águas. Como a imitar minha fragilidade ameaça tombar do alto e batiza salgada a fuça.

Karinne Santiago 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Crônica para muito além do Alentejo V


al-Farrob

Bate com a lateral do sapato no degrau da porta. Retira o excesso de areia, mas não as pegadas. Entra pela sala. O cheiro de mar inunda a casa. Tudo fica mais quente. Tem o sol no dourado das raízes dos cabelos que iniciam a testa, mas todo o resto é negro como água sem farol.  Tem a roupa de linho. Tem o couro a equilibrar a cintura. E os olhos que não desvendo, pois rápido me afogo. Quando se aproxima, ali, onde orquestro fomes, desampara a língua como se repleta de limo invadisse a fonte. Agita-se como peixe sem água e o peito a arfar.

Karinne Santiago 

Crônica para muito além do Alentejo IV


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A água se avoluma. Cria sua condição de transpor. Condição de abismo. Em movimentos vistos agiganta-se e corre. Desliza entre o céu e a areia. Arrasta consigo milhares. Inventa uma grinalda rendada que arqueia na ponta do caracol. Flutua plena. Nota a precipitação e prestes a lançar-se ecoa um canto que parecia esquecido. Um eco profundo de vozes de presságios e acenos.  Aceita. E lambe a praia lenta e faceira. Desfaz a forma. Resiste em permanecer água. Sente-se afundar. Desaparecer. Deixa a sombra, o contorno. Seca a brancura em bolhas estouradas com preguiça pelo vento. E o mar converge. Ajeita-se majestoso. Toma o que sobrou de água. Recolhe-as como se tivesse um ventre e prepara o nado. É assim que me chegas... 

Karinne Santiago