quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Diário em Devaneio Noturno XI





A língua sabatina a libido. Revirando o colo e entranhas. Pousa suave na intimidade vulnerável. Propositalmente abandonada. A língua, mucosa sinuosa e lânguida forja na boca um mastro flexível que saliva palavras desconexas. Inaugura um dicionário vasto de súplicas e leviandades. E no primeiro sabor, selvagem e urgente, certo doce. Um sumo pretensioso. Primitiva calda. Fome e sede adocicadas sucumbem ao cio e não se intercalam. Rompem do ventre ao mesmo tempo. Esse dorso curvado entre as coxas confidencia obscenidades e volúpia. É na boca que se engrossa a gula. Este sabor solvido enquanto os dedos agarram os cabelos como rédeas. Agora, o rosto contra o monte aberto e despido. Liso e desarmado. Uma secura brota na boca oposta. E quando a língua abandona a doçura, a acidez rompe. O desenho avermelhado dos dedos no quadril. O vigor rosa dos lábios pequenos e grandes. Os corpos rubros suados e inquietos. Confundem-se. Misturam-se. Avolumam-se. A língua profere batizados com nomes e sermões inexatos ou inexistentes. Recria um cenário de fuga e fantasia. Respira-se o cheiro de ambos os sexos. Escuta-se inundações. Escorre de uma brecha para outra o sabor é o sexo. A saliva é adorno. O corpo é fetiche. A acidez é líquida ou viscosa. A acidez respinga e lava o rosto, a cara, a pele. A acidez dissolve os sentidos. Confunde e inspira. A acidez pede para ser provada com o dedo. O indicador vasculha a acidez. O dedo médio agride a acidez. A vulva pulsa. A acidez corrói o pudor. A acidez pede afago. A acidez pede palavrões. Até que a acidez transborda a salinidade das lágrimas. A pronúncia são gemidos contrariados e impetuosos. Colhem pedidos e promessas insensatas. A língua se desfaz no sal. Agora a água é centro do mundo. A língua se fragiliza diante da correnteza. E desfaz o caminho em reviravoltas. A língua deixa-se abandonar. Segue ao norte e se surpreende com abrupto volume. Delicado e latejante. E descansa larga sobre ele. Que se contrai. Uma pequena bandeira hasteada que pede regresso. Uma ilha abandonada. Há o conforto macio onde a língua brinca. Há uma inocência surpreendente. Há uma contradição entre os sentidos. Uma maciez enrijecida. Uma terra abandonada. Uma carne viciante. Quase um outro corpo com todos os sentido exposto e negligenciado pelo calor e umidade. E a língua baila como a pedir desculpas. E a língua agiganta-se diante da redescoberta. A língua não se inibe. Cobre e abriga. Lambe e suga. A língua é sobretudo acolhedora daquela feminilidade. A língua independente da boca é feminina. A língua discursa a inquietação da mulher. A língua se envaidece como mulher. A língua é carente como a mulher. A língua é passional como a mulher. E a língua escorrega lentamente ao espaço anterior e chicoteia. A língua balança seus contornos com violência. A língua desconjura pecados. A língua é a própria serpente. A língua não se desfaz do paraíso. Mas aspira o amargor da despedida. Já cansada e desfeita. A língua quer arrebentar o outro num gozo profundo. A língua quer libertar o outro com o resto de fúria que a impera. A língua quer se fazer macho e forjar no corpo da fêmea toda incompreensão dos gêneros. E a mulher grita. A dona do corpo atingido e violado, xinga. A mulher arde ao oposto da amargura. A mulher dissolve-se em repentes que lhe chegam de forma desordenada. A língua fere o ventre. A língua refaz amarga o caminho da separação. A língua leva o gosto de toda sua sensibilidade e desordem e desaba cansada dentro da outra boca.


Karinne Santiago.

2 comentários:

  1. PARABÉNS KARINNE SANTIAGO. TEXTO POETICO-ERÓTICO EXTRAORDINÁRIO. NÃO É FACIL EM PALAVRAS DIZER TANTO.

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  2. O Poeta toca a língua,
    repousa nos sabores,
    extrai o que é feroz
    e depois
    celebra o mel...

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Vamos poeticar?!