terça-feira, 23 de setembro de 2014

Série: Notícias para o Futuro



Nico Jesse


Havia depositando em mim certa leveza. Desconhecia o gosto, o cheiro, o gesto. Não dizia nada, apenas sorria. E tudo além de nós foi se perdendo. Não se ouvia mais as buzinas, as conversas entrecortadas dos passantes ou muito menos os ponteiros do relógio. E o encontro passou a ter um nome, o peito certo perdão e a reza, o milagre. Parecíamos atônitos. Dois bobos mergulhados um no silêncio do outro. De perto pude ver todos os detalhes que o retrato não revelava e o achei muito mais bonito, confesso. Tinha o castanho em tudo. O cabelo, os olhos e pele. Era uma morenice faceira. Cor de criança travessa que brinca ao sol ou a cor de algum fruto adocicado e carnudo.  A boca entreaberta num riso mudo parecia querer dar espaço à fala, mas não precisava dizer nada. Assim, como não disse, mas fez. Recolheu os lábios num beijo em minha testa. Parecia pedir permissão para os calores que levemente eram depositados em meu rosto. Ou eram meus estes calores como resposta? E foi por estes modos que outros beijos foram sendo depositados. Até que as mãos se alargaram e o abraço me recolheu para tão próximo que não pude disfarçar meu corpo trêmulo. Em denúncia, a respiração, acalentou meu coração, e em sofreguidão disse-lhe baixinho: - “Seja bem-vindo!”. Mas não era só isso. Na verdade, falava-lhe sobre solidão. Dava-lhe indício do tempo e da espera. Além, claro, de deixar escapar alguma fantasia. Era o corpo feminino que se emancipava em susto contra qualquer tipo de resistência ou denúncia. Era o apaziguamento entre o real e o imaginário. Porém, seu hálito sabia conduzir-me. Havia um vigor naquele silêncio e após conhecer a maciez depositada em meus lábios compreendi a viscosa força da sua intimidade. Era um ballet em segredo a dois. Era a vez de o instinto tentar romper com algumas formalidades. O hálito, o perfume. O paladar, o olfato. A pele, o gemido. O tato, a audição. E de olhos fechados nos enxergávamos por dentro. A distância era devorada num banquete com uma curiosa malícia. Falo da delicadeza. Neste momento, o corpo não sabe nomear o sentimento. O desejo se desloca fazendo o pensamento rodopiar entre todas as conversas passadas e risos. Sabíamos também nos perder entre risos. Eram tantos e tão fartos. Eram pueris e tolos. Noutros, maliciosos e secretos.  Agora, de repente, a sedução parece tão menos disfarçada. É como se tivéssemos sidos surpreendidos num flagrante simultaneamente. Ou como se estivéssemos pagando por uma dívida a prazo ao mesmo tempo em que recolhíamos o produto. Aturdida tive vontade de ouvir meu nome. Queria escutar a pronúncia que só através das músicas que me presenteava podia tentar compor algum som. Engraçado, que sua voz assumia as vozes dos artistas que ouvíamos. Sua voz era um mosaico de letras embaraçadas com tudo aquilo que lia. Deus, que infantilidade! Como tudo era desconhecido, porém familiar. Como poderíamos ser tão íntimos e tão próximos? Como pude me deixar expor dessa maneira? Eu era o oceano. Eu era as correntes contrárias aos meus sonhos. Tinha-me ancorado numa ilha. Mas agora, eu tinha acionado um sinalizador para informar ao amor a minha rota. Era para dizer a minha própria vida que toda água derramada também pode ser benta e não apenas salobra. Eu deveria me concentrar em seus sabores. Mas o coração não sabe degustar quando a alma se inquieta. Sim, sim, já o vi. Sim, o provei, senti. Agora me deixe ouvir de você se isso que anda dentro de mim descontrolado é o mesmo animal selvagem que lhe vasculha. Talvez, tenha dito alto qualquer palavra que pensara, pois ao poucos foi se afastando do meu rosto. E disse meu nome. E foi ainda mais bonito. Jamais alguém tinha dito meu nome com tamanha sinceridade a não ser eu, ao me apresentar. Daí compreendi que era justamente isso que estava acontecendo. E disse o seu. Só que desta vez o prazer veio antes e durante. E isso não precisava ser dito. O prazer depois seria descoberto. Como feitiço.

Karinne Santiago

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