quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

RECEITA DE ANO NOVO- Carlos Drummond de Andrade


Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 

Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre. 





Quero observar e aprender. Em silêncio ou acompanhada. Sozinha ou com barulho. Não quero um resultado genial e nem aplausos. Quero somente a certeza que dei o melhor de mim. Que posso dormir leve. Que a alma esteja flexível e livre. Que meu corpo goze a coragem de estar vivo. Que minhas ações não contradigam minha maneira de pensar. Que minhas convicções não sejam verdades imaculadas. Que meu sorriso continue frouxo tanto quanto a lágrima. Que Papai do Céu me conduza e que eu saiba compreender teus sinais. Que eu não perca a delicadeza nestes tempos tão rudes. Que eu ande com a espinha ereta e o coração tranquilo.

Karinne Santiago.






FELIZ 2015!



domingo, 28 de dezembro de 2014

Dos 11 anos aos...

Hoje, tudo em que acredito, guardo. Guardo como a devolver ao meu ventre um sopro de vida. Guardo para que um dia possa fazer renascer. Que nasça mais uma vez como herança. Que nasça para mim tão forte e vívido como o primeiro sonho ao imaginá-lo. Que surja tão belo quanto quando com meus olhos ingênuos e ao meu coração imaturo apontaram para o zelo. É o tempo de guardar e resguardar. Proteger. Proteger. Proteger. 

Crônica para muito além do Alentejo VIII




Google Imagens


Bate contra o próprio ser. Bate contra a areia. Bate contra o casco. Bate contra as pedras. Bate. Bate. Bate. Como espatifar o que é líquido? Como despetalar o que é líquido? Bate. Bate. Bate. No fundo essa é a condição de existir. Bate. Coração. Bate. A vida bate. A euforia bate. Assim como a dor, bate. A saudade bate. A ausência bate. Bate. Solidão. Bate. A água transborda da alma e jorra do cílio ao queixo. Essa água que afoga. Que enxugo com o pulso. Esfrego na saia. Inundando tudo e toda. 

Karinne Santiago.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Poesia-Presente: MULHERES E FLORES


Um presente do querido poeta Joaquim Vale Cruz




Lili Roze


As mulheres são como as flores
pois delas têm sua beleza e seus odores
como elas embelezam e dão cheiro à natureza
e enchem este mundo de encanto
motivo porque eu as adoro e amo tanto
quando se vestem da mais pura singeleza


São uma atracção, com seu carinho e sua ternura
que as vezes conduz o homem à loucura
são o melhor remédio para a nossa dor
que sabem aliviar e converter em alegria
como seu saber e a sua simpatia
e dão todo o sentido à palavra amor

Joaquim Vale Cruz 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

FELIZ NATAL !!!

Para Vovó Maria e Vovô Moura


Karinne Santiago



Uma das grandes recordações que tenho desta data não é só nostálgica, mas inclusive, feliz. Delicada também, como só as lembranças que nos remetem nossas avós são capazes de ofertar. Aproximando o natal, ela começava a receber cartões comemorativos das irmãs que moravam longe, de cunhados e sobrinhas, do restante da família e amigos, mesmo os que residiam na mesma cidade. Minha avó se apressava em ir ao centro de Aracaju para comprar os cartões que enviaria com mais tantos desejos e votos de prosperidade e felicidade. Em geral, era assim que terminava cuidadosamente cada mensagem. Ela também, respondia alguns para o meu avô. Por vezes, ambos ficavam na cozinha até mais tarde escrevendo e escrevendo. Desenhavam com cuidado cada letrinha. Escreviam lentamente tanto para não errar quanto para que a caligrafia não ficasse feia, como ela gostava de explicar. Depois colocavam nos envelopes e mais uma vez caprichavam na letra. Quando não achavam cola, minha avó com seus truques infalíveis, dos quais quase nenhum herdei, infelizmente, preparavam uma mistura com maisena e pronto, já tínhamos, cola! Entretanto, a beleza da data não acabava após meu avô ir despachar os cartões nos correios. Outra coisa linda de se ver, era como ela corria para receber direto das mãos do carteiro os cartões que continuavam a chegar mesmo após passado o dia vinte e cinco de dezembro. Havia uma ansiedade e uma saudade. Havia afetividade e sensibilidade que ela sabia manter além do Natal! Enfim, com imenso carinho, queridos amigos, desejo um Feliz Natal! E como minha avó escreveria, com votos de Prosperidade e Felicidade para todos! Obrigada pela amizade virtual ou não. Beijos carinhosos.
Karinne Santiago.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Crônica para muito além do Alentejo VII

Google Imagens


E depois do alvoroço como do cardume desorientar a rota. Encosta a boca em meu ombro. Revira o rosto para o pescoço. Fecha os olhos e finge ser de verdade. Parece homem essa tempestade. Há uma santa que protege os pesqueiros. Uma mulher paciente e vaidosa. Se pudesse ela interceder e com sua fé me revestisse seria dela a peça de tecido azul. E de cochicho lhe diria que tanto ardor seria de mais valia como amor.

Karinne Santiago

Crônica para muito além do Alentejo VI

Google Imagens

Vasculho seu peito ou devo dizer diário de bordo? Cartas, coordenadas, mapas. Esta coisa que ata meu coração contra o seu assombro de pedras a receber as ondas. Essa força de idas e vindas que me amedronta e excita. Parece que afundo diante do seu corpo com uma âncora presa entre palavras bonitas e gemidos. Há um paraíso perdido. Uma terra virgem e desconhecida com figuras míticas. É este sabor de maresia que nos antecipa. A carranca afasta agouros. Vai fiel abrir águas. Como a imitar minha fragilidade ameaça tombar do alto e batiza salgada a fuça.

Karinne Santiago 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Crônica para muito além do Alentejo V


al-Farrob

Bate com a lateral do sapato no degrau da porta. Retira o excesso de areia, mas não as pegadas. Entra pela sala. O cheiro de mar inunda a casa. Tudo fica mais quente. Tem o sol no dourado das raízes dos cabelos que iniciam a testa, mas todo o resto é negro como água sem farol.  Tem a roupa de linho. Tem o couro a equilibrar a cintura. E os olhos que não desvendo, pois rápido me afogo. Quando se aproxima, ali, onde orquestro fomes, desampara a língua como se repleta de limo invadisse a fonte. Agita-se como peixe sem água e o peito a arfar.

Karinne Santiago 

Crônica para muito além do Alentejo IV


Google Imagens

A água se avoluma. Cria sua condição de transpor. Condição de abismo. Em movimentos vistos agiganta-se e corre. Desliza entre o céu e a areia. Arrasta consigo milhares. Inventa uma grinalda rendada que arqueia na ponta do caracol. Flutua plena. Nota a precipitação e prestes a lançar-se ecoa um canto que parecia esquecido. Um eco profundo de vozes de presságios e acenos.  Aceita. E lambe a praia lenta e faceira. Desfaz a forma. Resiste em permanecer água. Sente-se afundar. Desaparecer. Deixa a sombra, o contorno. Seca a brancura em bolhas estouradas com preguiça pelo vento. E o mar converge. Ajeita-se majestoso. Toma o que sobrou de água. Recolhe-as como se tivesse um ventre e prepara o nado. É assim que me chegas... 

Karinne Santiago

domingo, 30 de novembro de 2014

Parabéns, meu filho. E obrigada por todo amor...tanto riso...e coragem! Eu te amo como jamais imaginei ser capaz de amar alguém. Feliz sete aninhos!!



Sabrina Witt


Deixa serenar
Outra canção de ninar
 Assim do seu jeito

Num sorriso frouxo
Entre caracóis

Todo o céu
Fantasiou-se de corte
Só para o meu rei, Leãozinho.


Kainne Santiago.




sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Crônica para muito além do Alentejo III

Google Imagens

Apesar de tanta sede tens a ancestralidade das correntezas. Lábios de barcos à deriva. Uma língua que desmistifica sereias. Ouvidos selados contra arroubos. Corpo atado ao mastro. Têm tantas partidas tais quais frestas de sol contra o assoalho gasto. Das sombras, veias crepitam na pele tatuando sais.

Karinne Santiago 

Crônica para muito além do Alentejo II

Rui Serra


Ele dispara palavras como areia na ampulheta. Cada sílaba escorre para dentro de mim traçando mapas imaginários. O gosto de maresia confessa lonjuras. Absorvo pôr do sol e gaivotas. O mar ecoa nele como se o coração fosse uma pequena concha guardada no peito. Seus gestos de marinheiro apontam para minhas ilhas desertas. Finca bandeira. Crava seus dentes em meu ombro. Deixa-me seu brasão.

Karinne Santiago 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Amo-te, Davi!

Para minha metade anjo, ao meu filho Davi. 
De um amor sem limite e distância. 
Tal como deve ser o amor...







Amo-te
E como não hei de amá-lo? 

Teus olhos viram-me por dentro
Teus ouvidos ouviram-me por dentro 
Tuas mãos tocaram-me por dentro 
Tua pele sentiu-me por dentro 

E este côncavo amor 
Fez-me inteira 
Fez-me mãe 

Amo-te 
E como não hei de amá-lo? 


Karinne Santiago 



* E a poesia fez coração...

domingo, 23 de novembro de 2014

Crônica para muito além do Alentejo



Ele chega e deita-me oceanos. Fala-me em língua familiar e distante. Suavemente inspira ondas. Ele tem olhos de faróis e boca de sal. Tem os passos desfeitos pelas espumas. Reserva o passado conforme porto. Cataloga estrelas do céu e compara com as marinhas. Intitula de sonhos acontecidos e por esta feita, se tornam mortais. Ele não tem horas. Ele é além do tempo. Entoa canções e confunde as de amor com ninar. Ele carrega uma saudade de algo não encontrado. Não sabe nomeá-la. Ele pisca lento contra o vento. Tem palmas alvas e macias. Confundo-as.



Karinne Santiago






quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Diário em Devaneio Noturno XI





A língua sabatina a libido. Revirando o colo e entranhas. Pousa suave na intimidade vulnerável. Propositalmente abandonada. A língua, mucosa sinuosa e lânguida forja na boca um mastro flexível que saliva palavras desconexas. Inaugura um dicionário vasto de súplicas e leviandades. E no primeiro sabor, selvagem e urgente, certo doce. Um sumo pretensioso. Primitiva calda. Fome e sede adocicadas sucumbem ao cio e não se intercalam. Rompem do ventre ao mesmo tempo. Esse dorso curvado entre as coxas confidencia obscenidades e volúpia. É na boca que se engrossa a gula. Este sabor solvido enquanto os dedos agarram os cabelos como rédeas. Agora, o rosto contra o monte aberto e despido. Liso e desarmado. Uma secura brota na boca oposta. E quando a língua abandona a doçura, a acidez rompe. O desenho avermelhado dos dedos no quadril. O vigor rosa dos lábios pequenos e grandes. Os corpos rubros suados e inquietos. Confundem-se. Misturam-se. Avolumam-se. A língua profere batizados com nomes e sermões inexatos ou inexistentes. Recria um cenário de fuga e fantasia. Respira-se o cheiro de ambos os sexos. Escuta-se inundações. Escorre de uma brecha para outra o sabor é o sexo. A saliva é adorno. O corpo é fetiche. A acidez é líquida ou viscosa. A acidez respinga e lava o rosto, a cara, a pele. A acidez dissolve os sentidos. Confunde e inspira. A acidez pede para ser provada com o dedo. O indicador vasculha a acidez. O dedo médio agride a acidez. A vulva pulsa. A acidez corrói o pudor. A acidez pede afago. A acidez pede palavrões. Até que a acidez transborda a salinidade das lágrimas. A pronúncia são gemidos contrariados e impetuosos. Colhem pedidos e promessas insensatas. A língua se desfaz no sal. Agora a água é centro do mundo. A língua se fragiliza diante da correnteza. E desfaz o caminho em reviravoltas. A língua deixa-se abandonar. Segue ao norte e se surpreende com abrupto volume. Delicado e latejante. E descansa larga sobre ele. Que se contrai. Uma pequena bandeira hasteada que pede regresso. Uma ilha abandonada. Há o conforto macio onde a língua brinca. Há uma inocência surpreendente. Há uma contradição entre os sentidos. Uma maciez enrijecida. Uma terra abandonada. Uma carne viciante. Quase um outro corpo com todos os sentido exposto e negligenciado pelo calor e umidade. E a língua baila como a pedir desculpas. E a língua agiganta-se diante da redescoberta. A língua não se inibe. Cobre e abriga. Lambe e suga. A língua é sobretudo acolhedora daquela feminilidade. A língua independente da boca é feminina. A língua discursa a inquietação da mulher. A língua se envaidece como mulher. A língua é carente como a mulher. A língua é passional como a mulher. E a língua escorrega lentamente ao espaço anterior e chicoteia. A língua balança seus contornos com violência. A língua desconjura pecados. A língua é a própria serpente. A língua não se desfaz do paraíso. Mas aspira o amargor da despedida. Já cansada e desfeita. A língua quer arrebentar o outro num gozo profundo. A língua quer libertar o outro com o resto de fúria que a impera. A língua quer se fazer macho e forjar no corpo da fêmea toda incompreensão dos gêneros. E a mulher grita. A dona do corpo atingido e violado, xinga. A mulher arde ao oposto da amargura. A mulher dissolve-se em repentes que lhe chegam de forma desordenada. A língua fere o ventre. A língua refaz amarga o caminho da separação. A língua leva o gosto de toda sua sensibilidade e desordem e desaba cansada dentro da outra boca.


Karinne Santiago.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Cobiça

web
















É do corpo
É a febre

Seu sexo
Dilacera esperas
Come-me viva

Olhares
Arranhões

Engole-me
Como ordem
Prende-me viril
As ancas úmidas

Vasculha-me o hálito
Desliza minhas brechas
Desprezas a dor

Provoco-lhe
Finjo não querer
Permito não saber
Falsa

Invade-me quente
Debruça-se
Agarra-me

Mostra-te
Debato-me
Afasto-lhe

Sugamos o tédio
Solvemos urgências

Escorrega-me serpente
Crava-me venenos

Pendemos desconhecidos
E em cada um metades

Saliva
Suor
Sêmen


Karinne Santiago.


domingo, 9 de novembro de 2014







A alma tem que estar nua
E o corpo transbordante

Um brilho naquele horizonte
Que migra conforme a fome

Pois, se há querer
Não me basto

Pulso


Karinne Santiago.

não são os poemas que nos propõem vastidão


Carinhos chegaram de todos os lados. Além mar, norte,  nordeste...todos os cantos. Carinhos como sopro ou raio de sol. Carinhos em poema. Obrigada, poeta Assis Freitas. 





tumbrl





repara que na asa do anjo há lentidão
repara que no voo há mais horizonte
repara que no movimento há impulso
repara que o olho é vitima da atenção

repara que a acidez conduz a língua
repara que o norte é sempre direção
repara que o lagarto conduz silêncio
repara que no deserto areia mingua

repara que pássaros respiram canto
repara que o desatino tem voz altiva
repara que o espanto liberta o súbito
repara que o mote incita ao arremate

assis freitas

sábado, 8 de novembro de 2014

Que tenha esse gosto de sal


tumbrl



Que tenha esse gosto de sal
Dessa água que me banha a pele, mar
Dessa água que me lava a alma, lágrima

Que tenha esse gosto de sal
Dessa água que emana do corpo, suor
Dessa água que emana do desejo, gozo

Que tenha esse gosto de sal
Dessa água que hidrata a farinha, pão
Dessa água que desconheço a fonte, Deus

Que tenha esse gosto de sal
Dessa água que perfuma a flor, orvalho
Dessa água que saboreio você, saliva

Que tenha esse gosto de sal
Dessa água que corre não sei para onde, vida
Dessa água que corro não sei para onde, destino.


Karinne Santiago.




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Lilya Corneli


Reinvento destinos
Percorrendo os dedos
Entre seus cabelos escuros

E vejo mechas escorregarem
Realinhando minhas buscas
Outro norte

São lentos os movimentos
Como os dias quando me faltas
São descoordenadas as voltas
Quando não me dizes e sorri

E a textura dos fios em desalinho
Migra o afeto como resposta
Ensaiando curvas entre as raízes

Se um calafrio me assalta
E em minha pele transcrevo o desejo
Refaço todo carinho com um beijo.


Karinne Santiago.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Notícias para o Futuro






Todos os vincos dos seus lábios tramam rotas. Incompletas estradas repletas de idas e vindas. Um mapa para se perder. Um labirinto afortunado.
Karinne Santiago.

Lilya Corneli












Mordo-te a boca
Como fruto novo
Maduro e carnudo
Recém colhido

Vindo de outros ventres
De um solo fértil
E longínquo

Desta umidade
Uma terra entregue
Suavemente rendida

Em sopro
Num colo farto
Tomba

Rompendo a casca
Da polpa se mostra
Puro viço.


Karinne Santiago


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Lilya Corneli





I
Sua boca instiga-me orvalhos
Numa espera de flor
Desabrocho hora após hora.


II
Percorro do solo ao alto
Agarram-me raízes
Se por brisa chegas
Vespertino sonho.

III
Escureço lonjuras
Forjo na sombra suas chegadas
São de estalidos de folhas
suas pegadas.

Karinne Santiago.

domingo, 2 de novembro de 2014

Mark Sink







Todo corpo quer repouso
Numa curva de riso

E no peito
Onde prolonga a alma

Expirar cicatrizes.

Karinne Santiago




Aos nossos novembros

Para minha querida amiga, Ana Maria Oliveira!


Foto de Ana Maria Oliveira.


tem por pétalas, cílios
a cingir brisa

do aroma azul, céus 
a selar lonjuras

numa saudade, raízes
a lavrar refúgios.


Karinne Santiago.



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sobre aquilo que não nos resta

Mira Nedyalkova


Há ausências tão permanentes
que me faltam cadeiras

Há ausências tão presentes
que me faltam conversas 

Há ausências tão estranhas
que me faltam espelhos. 


Karinne Santiago.

Ata-me

Mira Nedyalkova














Ata-me
Forja em minha pele permanência
Como quem compreende dos nós o laço

Ata-me
Dobra-me sobre suas esperas
Deixe frouxo por sofreguidão a trama

Ata-me
Curva as pontas que sonham infinitas
E que se confundam seu olhar e a fita.

Karinne Santiago.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ausências



Mira Nedyalkova








Pois sempre fui de ausências
De muitas partidas e despedidas
Por vezes, porto
Noutras, nado.

Karinne Santiago.

Ancora-me o desejo


Mira Nedyalkova



Quero que sua boca desminta
a limosidade depositada por lagos rasos

Que tua língua com herança dos navegantes
lance-me tempestades e tormentas

Até que reste sobre meu corpo a salinidade de tuas águas.

Karinne Santiago


Precisava de um coração lusitano para conVersar tão lindamente com esta poesia. E meu poeta mais que querido me deu este presente:




CONTOS LARGOS, CONTOS VELHOS

Até que reste sobre teu corpo, das minhas águas a salinidade
sem que minha boca desminta dos lagos rasos a luminosidade
ficarás sempre ancorada no desejo
porque a minha língua tem em si a herança dos navegantes
quando te lança em tormentas e tempestades semelhantes
e no fervor e na emoção de longo beijo

São contos largos, contos velhos e tão vividos
de sentimentos tão intensos e sempre cumpridos
que reflectem tantos dos nossos momentos de glória
aqueles em que se perde e se acha a poesia
mesmo trazendo em si, a verdade ou a fantasia
mas que desta forma linda, nos não saem da memória

Joaquim Vale Cruz



OBRIGADA!!!



domingo, 28 de setembro de 2014

Notícias sobre o Futuro



Jodi Wilson


Sobre lembranças prefiro a versão das conchas. Distraídos andamos na areia e o coração no mar, por vezes, aquele formato curioso e com cores mescladas pescam nosso olhar. Nos agachamos e buscamos. Com a mão espalmada investigamos todos os lados até a escondermos. E agora uma concha resguarda outra...Um outro olhar. Lavamos a concha em água fria, porém doce. Secamos ao sopro ou com as horas do dia. Escolhemos um vasinho e depositamos na estante. Perto o suficiente para quando os olhos quiserem visitar. Distante o suficiente para outras descobertas.

Karinne Santiago

NAU DOS SEUS LÁBIOS

Christian Schloé


Os versos velam os lábios
dos beijos que almejo

como cingir palavras
e distâncias

ou resguardar do mar,
o sal.


II

No contorno do lábio
certo abraço

é o sabor do abrigo.


III

Represa nos lábios
os versos que escrevo

Deixem que decantem sonhos
ou suspiros.

Karinne Santiago.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Série: Notícias para o Futuro



Nico Jesse


Havia depositando em mim certa leveza. Desconhecia o gosto, o cheiro, o gesto. Não dizia nada, apenas sorria. E tudo além de nós foi se perdendo. Não se ouvia mais as buzinas, as conversas entrecortadas dos passantes ou muito menos os ponteiros do relógio. E o encontro passou a ter um nome, o peito certo perdão e a reza, o milagre. Parecíamos atônitos. Dois bobos mergulhados um no silêncio do outro. De perto pude ver todos os detalhes que o retrato não revelava e o achei muito mais bonito, confesso. Tinha o castanho em tudo. O cabelo, os olhos e pele. Era uma morenice faceira. Cor de criança travessa que brinca ao sol ou a cor de algum fruto adocicado e carnudo.  A boca entreaberta num riso mudo parecia querer dar espaço à fala, mas não precisava dizer nada. Assim, como não disse, mas fez. Recolheu os lábios num beijo em minha testa. Parecia pedir permissão para os calores que levemente eram depositados em meu rosto. Ou eram meus estes calores como resposta? E foi por estes modos que outros beijos foram sendo depositados. Até que as mãos se alargaram e o abraço me recolheu para tão próximo que não pude disfarçar meu corpo trêmulo. Em denúncia, a respiração, acalentou meu coração, e em sofreguidão disse-lhe baixinho: - “Seja bem-vindo!”. Mas não era só isso. Na verdade, falava-lhe sobre solidão. Dava-lhe indício do tempo e da espera. Além, claro, de deixar escapar alguma fantasia. Era o corpo feminino que se emancipava em susto contra qualquer tipo de resistência ou denúncia. Era o apaziguamento entre o real e o imaginário. Porém, seu hálito sabia conduzir-me. Havia um vigor naquele silêncio e após conhecer a maciez depositada em meus lábios compreendi a viscosa força da sua intimidade. Era um ballet em segredo a dois. Era a vez de o instinto tentar romper com algumas formalidades. O hálito, o perfume. O paladar, o olfato. A pele, o gemido. O tato, a audição. E de olhos fechados nos enxergávamos por dentro. A distância era devorada num banquete com uma curiosa malícia. Falo da delicadeza. Neste momento, o corpo não sabe nomear o sentimento. O desejo se desloca fazendo o pensamento rodopiar entre todas as conversas passadas e risos. Sabíamos também nos perder entre risos. Eram tantos e tão fartos. Eram pueris e tolos. Noutros, maliciosos e secretos.  Agora, de repente, a sedução parece tão menos disfarçada. É como se tivéssemos sidos surpreendidos num flagrante simultaneamente. Ou como se estivéssemos pagando por uma dívida a prazo ao mesmo tempo em que recolhíamos o produto. Aturdida tive vontade de ouvir meu nome. Queria escutar a pronúncia que só através das músicas que me presenteava podia tentar compor algum som. Engraçado, que sua voz assumia as vozes dos artistas que ouvíamos. Sua voz era um mosaico de letras embaraçadas com tudo aquilo que lia. Deus, que infantilidade! Como tudo era desconhecido, porém familiar. Como poderíamos ser tão íntimos e tão próximos? Como pude me deixar expor dessa maneira? Eu era o oceano. Eu era as correntes contrárias aos meus sonhos. Tinha-me ancorado numa ilha. Mas agora, eu tinha acionado um sinalizador para informar ao amor a minha rota. Era para dizer a minha própria vida que toda água derramada também pode ser benta e não apenas salobra. Eu deveria me concentrar em seus sabores. Mas o coração não sabe degustar quando a alma se inquieta. Sim, sim, já o vi. Sim, o provei, senti. Agora me deixe ouvir de você se isso que anda dentro de mim descontrolado é o mesmo animal selvagem que lhe vasculha. Talvez, tenha dito alto qualquer palavra que pensara, pois ao poucos foi se afastando do meu rosto. E disse meu nome. E foi ainda mais bonito. Jamais alguém tinha dito meu nome com tamanha sinceridade a não ser eu, ao me apresentar. Daí compreendi que era justamente isso que estava acontecendo. E disse o seu. Só que desta vez o prazer veio antes e durante. E isso não precisava ser dito. O prazer depois seria descoberto. Como feitiço.

Karinne Santiago