quarta-feira, 28 de agosto de 2013

quando não dito ou mal dito...

Dei-me todas as flores (antes mesmo que chegue a primavera) Irei compor um buquê especial de lágrimas E olhar de perto cada pétala se desprender
Dei-me aquelas com espinhos Que brotos não existirão além das lanças Prontas para fisgar mais um pedaço meu
Dei-me entre várias o rubro tal sangue A plasticidade da dor ou tudo que se esvai É tão sua... e tão minha esta culpa e vazio
Dei-me os olhos da cegueira O oblíquo contexto de ter por ter De ser por ser, de ter e ser ou partir...
Dei-me a queda e o desabrigo da imensidão Sentir a ruptura da fibra entristecendo solidões Secando diante do jogo desvairado da carência

Karinne Santiago

Ryan Pickart

terça-feira, 27 de agosto de 2013

SE



Jaroslaw Datta


se adormecesse aos teus pés
minhas curtas fugas

também seria o pranto
breve equívoco do talvez?

Karinne Santiago.


Para Júlio, quimera...


" Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água" .
Julio Cortázar


Para Julio Cortázar


Jaroslaw Datta




se pudesse
anoitecer seus céus
costurando estrelas

e neste manto escuro
remendar algum brilho

ao longe ser toda ela
uma lua imensa
clara e única
a lhe inspirar soluços

fugidio seria mesmo o tempo
a nos recompensar de infinitos.


Karinne Santiago


DESABAFO

Michal Lukasiewicz


I
meu amor lhe assombra
quase como um cisco
enervando silêncios

movimento abrupto
conjecturando acasos
trinca no olho o afago

II
meu amor lhe morde
fincando dissabores
e tonto soluça descompassado

crava no dente
alguma canção descontente
e demente permanece incomodado

III
meu amor lhe atormenta
um zumbido militante
trocando juras por afagos

e de tão solitário
agoniza semelhante
ao último adeus ou fado.

Karinne Santiago