domingo, 19 de maio de 2013

Estórias sobre a minha quase morte

Maria Callas, em Medeia de Posolini

I

Qual o laço com que me impõe a fúria?

Dar-te a culpa que dissipa o zelo
para o desmantelo do destino

Eu, mulher
Face a face do seu sexo
Da matéria que me origina

Sem nome de santa
Para os seus pesares
Sem altares

Sem complacência
Nem tão sã nem tão doente

Antes o corpo
Dado como oferta
Das suas frustrações, Medeia?

O feminino estremecido
A infantilidade também

Finges ou vingas
(que não ver)

Então como me reconhece?
Como pensa ser da sua carne?
Tenho cheiro do seu ventre
ou o fogo que lhe arde?

Do seu fruto não comungo
Muito menos do seu rosário

Das suas mil rezas
Religiões e ladainhas
Aprendi sobre o silêncio
O meu
O seu
Do céu...

Karinne Santiago

enluarada fantasia

Podvarko


era lua
nua e vastidão

sobre os corpos
tantos abismos
entre perdas e brevidade

era astro
cheias e escuridão

balouçante
dedilhando marés
vieses em ondas

era nau
estação de partida
aceno e aposento
resguardando pedidos

curvatura alva
ponto inaugural
farol

era sua
onírico consolo
das equivocadas distâncias

porto de maresia
ferrugem da paisagem
do vento e areia

era rua
traço suspenso
astral do zelo

era a seta
o código
a amante impedida
repleta de solidão


Karinne Santiago

coreografia íntima


Lili Roze





alinha minhas fendas
em seus contornos

adornos salgados
nos pluralizam

Karinne Santiago

cio do pão

Teresa de Queirós






a língua
pousa-me no ventre
fecunda fome

Karinne Santiago

estórias sobre minha quase morte



Emmanuelle Brisson



Quando as mentiras emprestadas pesam como verdades neste disse ou não disse diante do óbvio,  paira um certo cinismo no ar enlaçado com meias desculpas. Se o espetáculo não foi visto através de uma lágrima, ali, logo ali e onde poderia se deixar entender tantas mágoas, então é claro que não seria possível renascer algo qualquer. Porém, quando a peça era encenada como provocação da dúvida para que outros triunfassem covardemente é que se evidencia quanto a hipocrisia foi usada como alicerce... Tentativas vãs de restauração implicam em novas máscaras. Gostaria de pensar e me confortar que o tempo seria capaz de desfazer todo mal, mas quando ouço sua voz e percebo as palavras ainda revestidas de mesquinharia, volto a me deparar com o horror daqueles dias... 


Karinne Santiago