terça-feira, 16 de abril de 2013

Revista Cruviana e o nosso Diário!

Páginas do Diário em Devaneio Noturno espalhadas por aqui. Muto feliz em participar da Revista Cruviana. Obrigada, José De Paiva Rebouças pelo convite!!!!

REVISTA CRUVIANA

Desengonçados...



Nevada Wier



Meus sentimentos são desengonçados. Esbarram-se em músicas, em fotografias... E em mim, em amigos e em pessoas que não conheço, mas que logo descubro afinidades... Enfim, eles saem por aí achando engraçado caminhar torto e até me atropelam. Meus sentimentos desengonçados derrubam coisas e dão topadas. Esquecem nomes e mágoas. Meus sentimentos desengonçados batem portas e riem sozinhos. Meus sentimentos desengonçados choram quando cansados, vendo tv, lendo poesia. Meus sentimentos desengonçados interferem na escolha do vestido ou do corte de cabelo. Meus sentimentos desengonçados suspiram por luas. Desprevenidos, meus sentimentos desengonçados bateram em seu peito... Deram ré e bateram de novo. Acharam que com o impacto tinham ficado ainda mais desengonçados. Meus sentimentos desengonçados aturdidos se deram conta que sentiam saudade. E ainda mais desengonçados pediram para ficar. E explicaram que são assim desde pequenininhos. Que possa ser que tenham jeito... Que poderiam até ser defeito de fabricação, mas são de boa procedência...


Karinne Santiago

Talvez um conto...


Para Adroaldo Bauer
Deborah Reffink


(...) Mas, és que chega a saudade. E no ninho aguardava suas chegadas. Trazia-me sempre no bico, o alimento. Versos e mais versos. E dizeres tão encantadores que o canto do passarinho soava com voz humana fatos de suas asas machucadas, relatos sobre imensidões e horizontes. Pousava-me distâncias no peito através da impossibilidade do permanecer por seus voos terem rotas predestinadas. Entretanto, restrita à liberdade, acatava-me no anonimato. Consentia esta condição, não por paixão ao segredo, mas por também somente poder ser assim naquele momento. Depois deram-me a a chance de antigas trajetórias. Sem supor o arrependimento breve, decidi tentar os meus próprios voos. E me distanciei do seu ninho. Certa do seu contragosto, porém querendo transpor o destino em tentativas. Minhas asas recém descobertas não tinham a malícia de lidar com as tempestades. Aos poucos minhas penas foram sendo arrancadas pelo temporal e fui perdendo altura. Fui perdendo a memória de como voar. Tinha medo de esquecer, inclusive, a referência do seu ninho. E quando já não tinha onde me agarrar fui perdendo os meus e a mim. Quase tombei... Refiz com asas emprestadas meu trajeto de regresso. E em seu ninho outra vez, descobri o quanto as asas podiam aquecer e resgatar. Quando preferia silêncios, de longe você já vinha acordando o mundo, o sol e a mim. Era uma vasta cantoria. Assombrava os passantes. Em algazarra de versos assustava sombras e resquícios. Entoava por mudanças com bravura. Ou desafinava o canto só para me fazer sorrir... até que conseguia. E por achar o meu riso lindo, me acompanhava (mesmo fingindo a preocupação), rindo junto. E seu olhar vasculhava-me. Tentava reconhecer a alegria que já havia visto em mim. Todos os dias e em horas distintas para se assegurar que realmente tinha aprendido sobre o riso e não decorado. Acostumei-me rápido com as surpresas carinhosas do vento, do tempo, das nuvens que ele me trazia. E numa madrugada repentinamente, confessei aturdindo o pássaro sobre o segredo do meu amor. E daí, não ouvi nenhum pio. Mudos. Ficamos mudos na espera das estrelas. Poderíamos ouvir o barulho das caudas das estrelas cadentes... a lua se espreguiçando... E prestes a cair do ninho, alguns segundos, após o susto. Disse-me, se é assim, se é amor, não poderia oferecer-te outra coisa, além do amor que sempre lhe dei...





Karinne Santiago.

Malcolm Liepke




quase inomináveis
nossas línguas
nos rebatizam
em apelos
: ais

Karinne Santiago.

Malcolm Liepke











que desaguemos
em marés

nossas salivas

e

entre as pernas

a rota das bocas
perdida no trajeto

dos nossos sexos
desbravados

Karinne Santiago