quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

DIÁRIO EM DEVANEIO NOTURNO- Parte IX

Em homenagem a Anais Nin


Signe Vilstrup



A serpente com sua língua bífida degusta o prazer em proporção elevada. Duas serpentes, duas línguas bífidas, quatro vezes mais paladares desmistificados nos céus das bocas. Dissolvem-se em aveludadas papilas sabores quase sobrenaturais em jocoso flerte. Atraem-se. Invadem almas. Todo corpo pulsa. Todo instinto arde. Seduzem em hipnotizados movimentos. Lentos. Precisos. Sagazes. Os sons das flautas embevecidos de gemidos provam da atração das serpentes. Os corpos como iguarias. Dão-se por alimento uma da outra. Répteis robustas manipulam os sentidos. Mascaradas em puro delírio modificam a consciência de quem as assiste. Erguem-se os corpos. Enroscam-se. Esfregam-se. Deslizam-se. Os ventres se tocam como imã. As peles buscam abrigos e refazem o trajeto manipulando pudores. Gingam fetiches. As caudas se movimentam como corpo de mulher. Arqueiam-se. Fendas. Espaços se abrem compassados. Maliciosamente iguais. Versos. Montes. Oscilações do deserto. Sem pelos em suas extensões. Nus. Suaves orifícios separam as carnes. Lábios libertos ditam cartilhas de Sade. E as serpentes se buscam. Exploram labirintos e temperatura. Contornos enrijecidos sinalizam a audácia. Deixam-se introduzir. Confiantes, por vezes, ingênuas. Contorcem-se. Viram-se. Migram de grutas. Herança das espécies. Entregam-se de fato. Aos longilíneos pertences. Demarcam territórios com suas digitais e saliva. Ludibriam-se. Lubrificam-se. Esfregam-se como a trocar de pele. Esfoliam os troncos e mamilos em manobras do corpo. Abocanham os seios como por sede ou fome. Sussurram palavras desconexas aos corações. Segredam taras. Voltam-se aos olhares. Silenciosas e ofegantes. Cruzam as pontas das línguas. Rubras variações. Perseguem-se. Cabelos molhados grudados no rosto imperam filetes. Retomam o colo e a língua bífida deixando novas sugestões de gozo. Anseiam-se. Recobrem-se lacrimosas. Dilaceram-se em voltas. Emergem-se uma do gosto da outra. Abandonam-se, mas se reaproximam. Não se fartam e escorrem. Riem das provocações. Não estabelecem acordos. Ao contrário, rompe-os. Reorganizam-se e cochicham palavras chulas. Mordiscam-se. Rasgam-se. Vasculham intimidades. Sôfregas vão se desfazendo das vestes femininas. Sensações extracorpóreas. O coração parece habitar nas cabeças. Alteradas e excitadas. Convalescentes das orgias. Rastejam no leito. Convergem sinuosas. Desvinculam-se do torpor alheio. Recolhem-se estarrecidas. Lambem-se. Lambem o ar. Lambem no ar os aromas. Lambem no ar os aromas de seus sexos. Olham-se. Envenenam-se em sonhos. Desfalecem.


Karinne Santiago


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013





o ventre mordiscado
original fruto carnoso
derrete-se em adocicada seiva

o amor é líquido!


Karinne Santiago

Da ausência fiz morada


Como se fosse vão te amar e por isso perfeito.
Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se.
E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego
O Seguidor disso sem nome? ISSO...

O amor e sua fome

Hilda Hilst*.


Edgar Degas



Nua. Se sobre ausências me refiro
A fragilidade do corpo diante da falta
Contesto o apreço da solidão que me configura
A respiração oscila em ritmo coordenado
Apontando despedidas e chegadas

Espera. O tempo não desmente
Mas vacila distâncias ao cair dos dias
De palavras habito os vazios. Poesia!
Tendo sua voz como prece. Nossos risos, divindades.

Karinne Santiago




em CANTARES DO SEM-NOME E DE PARTIDAS*.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Contradança entre luas

autor desconhecido.


Ao meu tato você molha
No meu prato você come
Minha sede é tua fome

Prova que você gosta
Versos de ficar prosa
Prova que você goza

Em língua faminta
Absorvo e aprecio
Inebriada de cio

Faço-me sua
Em carnes nuas
Inauguramos luas


Jorge Ricardo Dias e Karinne Santiago.



Demistim Ben




a este dar demasiado
merecida comunhão
reverbera a poesia

acúmulos tantos
cuidados pares
reinauguramos amantes

entrelaçados dedos
destinos, vestes, segredos
tão nosso esse desejo

quando o encontro
de pura essência
nos faz elos
nós cegos
tal qual o amor


Karinne Santiago.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Google Imagens




reconhecendo atalhos de sol
como passos na amarelinha
aos saltos abandono o inferno
para aos tombos chegar no paraíso

Karinne Santiago.

Malcom T. Liepke



suave melancolia
com olhos noturnos
me espreita pela fresta

o teto branco
tela de planos
por vezes gira

respiro como quem traga
solvendo a alma das coisas
que leve me invadem

sou a casa
os passos, as conversas
o som da criança brincando

a chaleira estridente
o vapor do café
a toalha da mesa

os costumes
herdados à revelia
ditam o sobrenome

sou o tanto de todos
o resto dos outros
e todas as faltas




Karinne Santiago.

PROSA MIÚDA XX

Steven Kenny



nenhuma dor é muda
soluça na madrugada
como réu confesso

Karinne Santiago

rastro de cores



Arquivo Pessoal



desejo
na displicência das palavras 
dizer-me sem censura

imperar neste dicionário
vastos sinônimos de vida

deixar cair sílaba por sílaba
ecoando fugidias letras
na liberdade efêmera

confundir o rascunho
com a folha que paira
depois da tempestade


Karinne Santiago