sábado, 12 de janeiro de 2013

1 ° de Janeiro







antes que não possa dizer
porque meus olhos se converteram
para tudo aquilo que me escapava
finjo que o universo restou nos meus sonhos

antes que o soluço me emudeça
respiro fundo o último sobro do seu verbo
me encosto na parede e rezo em lamentações
enxugo com a palma da mão o espanto

antes que a sala esteja deserta
e que não seja preciso atender o telefone
olho tudo em minha volta e fixo em você
debruçado sobre a mesa enquanto arrasto a mala

antes que seja a última peça a ser guardada
relembro a chegada como o mais feliz dos dias
e mesmo que não tenha tido nem canto ou assovio
meu peito batia asas numa frenética inspiração de sopro

antes que eu não adormeça mais ao seu lado
e que seu colo não seja o lugar mais seguro para meu riso
busco a alfazema derramada sobre nosso lençóis e peles
sendo o carinho nos teus ombros a minha grande euforia

antes que você feche a porta e o táxi chegue
e todos os abraços que planejei não fossem despedidas
olho você ao longe do lado daquele muro com pesar
as poesias arruinadas e descrentes assoberbadas de choros
guardarei para sempre a rosa branca que ganhei do seu filho.


Karinne Santiago


 Foto: Anka Zhuravleva

Palavra: gênese, eco e silêncio


Parte II: Eco









PALAVRA

Nota:

Apesar da definição supra, não existe uma designação técnica suficientemente precisa para "palavra", já que nem sempre é possível delimitá-la (Fonte: Wikipédia).




É no eco que a palavra anda de mãos dadas com o significado, mesmo quando este não se demonstra gentil. No eco, a palavra levita. Assume a estranheza de adquirir certa plasticidade e se molda até onde não lhe cabe. A palavra assume uma ressignificação conforme as lembranças que eclodem durante sua permanência e ausência. A palavra tem rastro e nos acompanha.


Karinne Santiago



Foto: Emmanuelle Brisson

Palavra: Gênese, eco, silêncio

Parte II: Palavra: Eco







PALAVRA

Nota:

Apesar da definição supra, não existe uma designação técnica suficientemente precisa para "palavra", já que nem sempre é possível delimitá-la (Fonte: Wikipédia).





O eco não é somente a repetição. Para ser eco é preciso ter muito mais que identidade. Há um certo direcionamento. Uma construção estratégica de existir. Numa falha, o eco se torna, o eco “é”, daí volta-se para a Gênese ou por excesso de zelo ou medo, torna-se Silêncio. A palavra no eco é propagação. A palavra se estende. É uma longa exclamação e não reticência. E isso não é uma construção metafórica do que estar por vir. É um demasiado existir, pois também não se camufla. A palavra ressoa como eco mesmo que não a pronunciemos e deixa suas impressões através do indeterminado fim.



Karinne Santiago



Foto: Emmanuelle Brisson
Anka Ahuravleva







híbrido sentir 
minha alma reparte-se 
num duelo inexato 



Karinne Santiago


Deixe-me quebrar!!!




letargia
sentidos em falência

do abismo
forjar voo
rota singular

queda!

derradeira contagem
o corpo contra as pedras
repartem a pele durante atrito

sem reação
apenas tombo
abrem as feridas

carne viva!

a dor pulsa
sangue e areia
pedaços de mim

olhos abertos!

escorro vermelho
escorro lágrimas
escorro na paisagem

avanço!

gosto salgado e ferrugem
quanto tempo falta?!


Karinne Santiago


Foto: Anka Zhuravleva





























sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

oratório de estrelas





poemas embalam ausências
com olhos ressequidos
vigiam o vazio

enganam-se diante do nada
vultos em vigília descrente

até a lua se espanta
da porta retrocede
e se compadece

acende estrelas
como velas

caem as horas
como preces




Karinne Santiago


Foto: Anka  Zhuravleva

Palavra: Gênese, eco e silêncio


Parte I: Palavra: Gênese





PALAVRA

Nota:

Apesar da definição supra, não existe uma designação técnica suficientemente precisa para "palavra", já que nem sempre é possível delimitá-la (Fonte: Wikipédia).




A palavra dá ao poema um corpo do qual o poeta é alma. As mãos invisíveis do poeta trabalham a palavra com o mesmo labor de artesão. Muitas vezes, o ímpeto da palavra não esmorece diante da delicadeza de antepor verso sobre verso e o poema anuncia o sentimento com a intensidade original, sendo assim catártico o ato de escrever. Um quase prelúdio de morte. Em outros, a palavra se esconde. Finge-se da própria morte. Angustia o poeta, a ponto de fazê-lo compreender como rendido e enquanto a palavra emudece, trama por si uma série de significados. A palavra é a renda que prende os significados e significantes e o poema por assim ser fruto, molda contornos para diversos olhares.



Karinne Santiago


Foto: Web

Quem me acompanha: Clarice Lispector

Livro: Para não esquecer (crônicas)
Ed. Rocco.


POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque _ a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras_ e ao toque brilhavam o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quando mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

C. Lispector



Tela: O Maiden e o Rio, Thomas Dodd

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Palavra: gênese, eco e silêncio



Parte I: Palavra: Gênese






PALAVRA

Nota:

Apesar da definição supra, não existe uma designação técnica suficientemente precisa para "palavra", já que nem sempre é possível delimitá-la (Fonte: Wikipédia).





A palavra brinca com o poeta de esvaziamento. Mira no centro e reverte o coração ou o pulmão na resma em branco. Quando coração, o poema pulsa numa audácia marginal. Vívido órgão. Um transplante de mazelas e amor, pretéritos e chegadas. Um enxerto de alma. Quando pulmão, sufoca ou revigora. A palavra inspira e exala o lirismo tanto quanto o verso se alonga na estrofe. A palavra devora e depois de escrita subverte o olhar do poeta como num primeiro amor e rima cadenciando o gozo letra por letra. A palavra extasia o poeta por segundos e depois como animal voraz demonstra-se pura pulsão. A palavra é um deslocamento de sentido. Um desejo confundido por espanto e de tão aturdido o poeta jura fidelidade ao que os poucos lhe condena.


Karinne Santiago


Foto: Web

Palavra: gênese, eco e silêncio

Parte I: Palavra: Gênese




PALAVRA

Nota:

Apesar da definição supra, não existe uma designação técnica suficientemente precisa para "palavra", já que nem sempre é possível delimitá-la (Fonte: Wikipédia).



A palavra é um diário de significados. Um conjunto de códigos omitidos até que os significantes anunciem suas correlações através de um mostruário de afeto. As representações dos sentimentos sentenciam as impressões do sujeito e instigam recordações por meio de associações de fatos. Um enredo enlaçado no dizer. Cronologicamente sem testemunha, a palavra anuncia, nomeia, agita. A palavra fomenta um monólogo, diálogo ou o silêncio. A palavra é uma das formas de se denunciar o inconsciente e vasculha intenções, até mesmo quando falta (lapso) ou sofre um equívoco (troca), a palavra simplesmente “é”. A palavra é uma invenção do falar, apesar do dizer ser ainda mais abrangente, pois nem tudo a ser entendido é expresso por ela a não ser quando o poeta, o maior inquisidor e arquiteto de ambas as formas, versa. O poeta tem a palavra como álibi. Sendo malabares ou um quase ilusionista, sabe dosar a poesia por critérios de espanto ou comoção. É o truque de fazer a palavra ser por si o maior dos seus personagens.



Karinne Santiago


Imagem: Web

domingo, 6 de janeiro de 2013

Amoras e Amigos,


Estou encerrando o blog.

Quero agradecer o carinho, todas as leituras e comentários, enfim esse compartilhar...

O Poeticaria continuará aberto...nossa, não sei me despedir...

Grata, eternamente, grata.

Beijimm!!!

Karinne Santiago

Obs: tentei escrever uma poesia, mas não consegui...lamento.