quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Diário em Devaneio Noturno- parte XII

Malcolm Liepke

A língua é um compasso traçando arrepios. Contornos redesenhados por vestígios da sua saliva sobre minha pele. A ponta da mucosa brilha contra o papel em branco. Umedecendo lentamente os extremos. Dobrando-me. Arqueio o ventre. Os dedos dos pés flexionados enrugam o tapete. As partes internas das pernas se oferecem apesar de rígidas. Sua boca retorna o projeto. Renova os movimentos. Compõe pequenos círculos. Os lábios pressionados dão espaço para os dentes. Morde-me e decifra-me. Compreendemos sem enigma todo o desejo. Com os braços sob o quadril apoia-me no chão. Enrosca uma das minhas pernas em cima do seu ombro. Sinto o contraste das nossas temperaturas. Seu rosto quente. Minha perna gélida quase trêmula. As costas das mãos escorregam até o joelho. Já percebe a ansiedade do ventre. Os lábios inchados agarraram as rendas. A trama da linha revela os pelos. Flores se projetam na flor maior. Líquida. Desmancha-se. Escorre entre as coxas. Derrama sua seiva em outros espaços. Ofertando um mapa ou um jardim. Tato, paladar, olfato. A primavera estimula o ímpeto. A liberdade adquirida com a boca rosna a vontade. Rasga as pétalas. O indicador e o polegar confirmam a falta da sombra. Investigam a sede e a gula. Fundo. Os dedos abrem novas pétalas. Tocam de leve a haste. E um gemido principia a fusão dos sentidos. O compasso testa o sabor. O compasso experimenta a maciez. Tudo se confunde. Lateja. Pulsam os sexos a confidenciar aprovação. O assoalho, a luz que orna a janela e o lustre. Tudo se funde. Olho para o teto. Ele é mudo, mas o ouço falar comigo. Juro que escuto. A noite tilinta as contas de cristais. As estrelas. O som das estocadas agarra as paredes. Entrelaçam nos pés dos móveis. Toma-nos. Somos todo aquele ambiente. Dentro. Desabitamo-nos. Assumimos outra dimensão. Cada vez mais fundo. Cada vez mais rápido. Todo corpo é sexo. A boca é meu sexo. Os dedos são seu sexo. Os sexos são o sexo. O cio. O suor. Os seios as esfregar os mamilos contra o coração e pelos. As costelas. Somos o sexo. O sexo. O sexo. O sexo. E o gozo...

Karinne Santiago

8 comentários:

  1. Extraordinário ! Só quem sentiu tal prazer o pode descrever, os outros só o podem adivinhar ou desejar ter. Parabéns Querubim. Maravilhoso o desenvolver da acção e do acto em si, com toda a riqueza que nos dá a experiência.Nada há de mais belo do que sentir e viver tais sensações. Senti-me transportado a momentos de igual tesão e a toda essa extraordinário evolução em crescendo até ao delírio final. Muito bom !

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  2. Obrigada, Joaquim! Ainda querendo retomar a série, mas confesso que meio perdida...Beijos, amigo e poeta!!!

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  3. Perdido fiquei eu, nesse emaranhado poético e excitante!
    Inebria. Extasia a mente.

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  4. Karinne Santiago, se me permite, aqui deixo num pseudo-poema a minha versão do seu texto que tanto me impressionou, favorávelmente digamos:

    Traçando arrepios, vai a língua em compasso
    nos contornos de doçura que eu com ela traço
    deixando vestígios de saliva sobre a pele…
    A ponta da mucosa doce e tão mimosa
    na sua excitação vai ficando rosa
    por força do tesão que o desejo impele

    Umedecendo os seus extremos lentamente
    ela vai-se dobrando e arqueando o ventre
    e os dedos dos pés vão-se contorcendo…
    Quando o interior das pernas tornado rijo, já se oferece
    e sua boca, tornada louca murmura uma prece
    renovam-se os movimentos já o desejo acendendo

    Compõe-se pequenos círculos e os lábios pressionados
    dão espaço aos dentes que se não fazem rogados
    Mordo-a. decífro-a, na compreensão do enigma
    e todo o desejo intenso e pensamentos vis
    surgem ao apertar-lhe com força os seus quadris
    e sinais nela vou deixando marcando-a como um estigma

    Apoio-me no chão e enrosco as suas pernas
    que os meus ombros envolvem com ternuras eternas
    e assim se desenvolvem nossas temperaturas
    As pernas gélidas e o seu rosto quente
    vão gerando espasmos no corpo dormente
    e desenvolvendo em mim as maiores ternuras

    As mãos irrequietas, pelos joelhos escorregam
    e aos maiores desvarios com fervor se entregam
    por forma que o ventre percebe a ansiedade
    e os lábios inchados se agarram às suas rendas
    e até vão beijando essas lindas prendas
    e esse corpo lindo, lindo de verdade

    Flores se projectam numa flor maior
    e a trama dos pelos aumenta nosso fervor
    líquido, desmancha-se, pelas coxas escorrendo
    derramando a seiva por diversos espaços
    estreitando mais estes doces laços
    e a emoção aumenta com o corpo tremendo

    Oferecendo o mapa de um lindo jardim
    tato, paladar, olfato vou sentindo assim,
    É a primavera que chega o ímpeto estimula…
    A liberdade adquirida rosna a sua vontade
    e a boca rasga as pétalas, plena de ansiedade
    que o polegar e o indicador no seu beliscar acumula

    A falta da sombra investiga, a gula e a sede
    fundo, os dedos descobrem novas pétalas abrindo-as adrede
    tocam de leve a haste, principia um gemido
    e a fusão dos sentidos testa o seu sabor
    experimenta a maciez e o mais doce odor
    de corpos em compasso num amor consentido

    Tudo se confunde e lateja naquele pulsar de sexos
    o assoalho, a luz, a janela e o lustre surgem desconexos
    e o tecto fica mudo, mas comigo fala
    porque a noite tilinta as contas de cristais
    que o som das estocadas aumenta ainda mais
    e colando-se às paredes nada o emudece ou cala

    Assumimos outra dimensão, cada vez mais fundo
    desabitamo-nos por completo deste nosso mundo
    e tudo ali é sexo nesse ambiente umbroso
    A boca, os dedos, os sexos, o cio e o suor
    o esfregar dos mamilos que quase causa dor
    é o êxtase chegando, o orgasmo e o pleno gozo

    JVC – FB – 2013 –XI - 06

    Beijos querida poetisa e amiga. Feliz semana

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  5. Wanderley, recentemente tive acesso a sesualidade em seus poemas. Uma versão masculina do erotismo. Acho muito interessante como prende o leitor e todo universo que cria ou recria em versos. Grata fico por lhe receber aqui. Um abraço, poeta!!

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  6. Joaquim, acho muito interessante a leitura que faz dos meus poemas. Esse conVersar forma um belo conjunto. Sempre!! Obrigada, amigo e poeta. Que belo poema estes que recebo como presente.

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  7. Ricardo, compactuamos interesses e preferências. Grata, amigo querido!!

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Vamos poeticar?!