quarta-feira, 16 de outubro de 2013

talvez uma prosa depois te conto

Catrin Welz Stein

O homem de fraque parecia que andava com algodão nas solas. E tinha por fraco, aliás, não dispensar seu gingado a nenhum desavisado decote. O passo miúdo conduzia-o entre idas do chapéu estendido numa curvatura de galanteio típico do cinema francês. E as vindas dos olhares a decifrar o bailado das saias das moçoilas. Dizia-se de coração fraco por formosuras, mas o que todos já sabiam que o preferido do senhor era exercitar seu palavreado. E conjugava cantigas, remendava anedotas, proseava bonito igual a passarinho ao ver o céu ensolarado depois de dois dias de chuva. Fosse quem fosse nenhuma delas pareciam imune as cordiais investidas do gabeloso. Citava tanto o amor que era o primeiro a supor que amava. Investia tremores e luas claras ao se sentir condecorado. Refazia-se entre suspiros. Soluçava poesia. Rendia-se a sua crença tanto que comovia e se comovia. Chegava até a sofrer em lamuriosas taças ao diz-que-me-diz da sua própria imaginação. E de tanto jurar e inventar vocabulário logo o povo mais próximo se amolecia e torcia pela felicidade do cidadão. Era uma, duas, três ou quem mais coubesse como flor na lapela. Umas até sabiam das outras. Insinuavam abandono parecendo queixosas da divisão de bens, mas não arredavam a ponta do salto. Pura mainha de mulher. Por vezes, realmente se ressentiam. Iam além do biquinho. Entretanto, não durava muito aquele ensaio de despedida. Ele com o ar tão queixoso. Um olhar tão penoso. Usava seu verbo mais charmoso que rápido tudo se esquecia. Há as que gostavam de ser mais uma. E se inspiravam naquele jogo. Parecia que essa era a partida que ele mais se atrevia, pois se as queixas predestinavam seus maridos, ele, porém, seria o redentor das falhas e das faltas. Pois para conquistador é necessário mais do que um bom ombro ou ouvido. É preciso acima de tudo está sempre bem disposto, acarinhado de colônia e robusto nas calças. O repertório pode até ser bem doméstico, mas se ambos fingem seus romeus e julietas sorte do acaso, do destino ou da ancestralidade da vida que os reuniu, dizem os mais emotivos. 


Karinne Santiago

5 comentários:

  1. Que boa cadência tem esta sua prosa-poética!)
    E quanto ao fundo, nem falo.

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  2. Ricardo, espero que outras prosas se somem. Obrigada pela visita. Um beijo!

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  3. Domingos, que bom ler isso...um abraço, poeta!!

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Vamos poeticar?!