sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Diário em Devaneio Noturno- parte VIII



Peter Van Stralen



Sacrilégio é negligenciar o desejo. Cada pelo eriçado é uma oração silenciosa da libido. Amedronta-me não ousar a carne ao milagre subversivo do instinto. E ardo em penitência quando isolada dos prazeres desfiguro o que há de mais divino no humano. Obedeço aos mandamentos da minha feminilidade julgando-me santa quando oferto o corpo ao seu templo preciso. Todos os meus redutos são oferendas em exposição sem pecados. Meus demônios reverencio entre tecidos castos. Catequizando um por um com cartilhas táteis. Pressinto os suores. Adivinhações de sua volúpia. Oro baixo sem piedade de mim e esquecendo-me das culpas. Clamo. Rogo. Paladares atentos desvendam dogmas e lhe absorvo ao reverso do puritanismo. Deslizando nossos sabores em preces desconexas. Lóbulo. Clavículas. Colo. E em transe sinto em êxtase o peso da entrega. Alucino em línguas diferentes. Latim ou puro balbuciar desgovernado. Listando o nome de todos os santos e comprometendo toda a vida em pagamentos de promessas avulsas. Via-sacra dos prazeres. Braços ávidos estendidos em clamor. Muitas imagens repercutem pelas paredes do quarto. Um oratório de vozes sôfregas em coro repetem meu nome. Tremores. Sinto o corpo em chagas por suas mordidas. Seus dentes cravando a dor por devoção. Agarro sua nuca como quem procura as contas de um rosário. Remexo as pontas dos dedos. Contraio o quadril e arqueio. Busco vazios e respiro fundo. Retomo meus ares e continuo em audácia essa doce penitência. Os mandamentos repercutem. Variações distorcidas e um eco perpetua a cobiça e a luxúria. Ajoelho-me em súplica agarrando-me à você. Exorcizo comovida nossas vergonhas em seu membro. Um confessionário em deleite. O ar impregnado do cio instiga fantasias sobre o paraíso. Dou-lhe os mamilos em comunhão. Redondos e frágeis. Alvos fáceis anunciam todos orifícios restantes em purgatório. Esperançosos de serem correspondidos sem piedade e por sua graça e reverência pulsam lacrimejando ao escorrer quente e vagarosamente. Seu hálito inunda-os. Sinto a elevação de nossas almas. Penso no Gênese. Falo o nome de Eva. Quero a maçã. Quero entre os meus lábios o fruto da desobediência. E ouço dizer-me sobre o prazer derradeiro. Os castigos que acarretam aos amantes. Impiedosa fúria divina que pelo amor demasiado corrompe paixões. Imploro pela expulsão do seu corpo diante do meu ventre desnudo. Liberto-nos dos males. Encho-me de glória e bendigo seu nome num grito. A minha voz anuncia nossa salvação.

Karinne Santiago

2 comentários:

  1. Assim, do desejo, da terna, amorosa e exclusiva fusão transformada de dois em apenas um, lânguida volúpia da razão apaixonada e resoluta, as almas despertas da calmaria das tensões ordinárias e vetustas ordinais, convictas as razões das carnais interações naturais, assim bem assim, nasci humano, como nascem os humanos desde sempre, à exceção do escrito sobre os três criados. Adão, Lilith e o filho anunciado por Gabriel à virgem. Assim, bem assim, no amor mais digno e puro, caminha à frente, passos firmes e seguros de si, a humanidade, e o bem querer que a acompanha, por quem os sinos dobram, repicam, multiplicam-se e povoam a terra de bilhões de seres únicos, frutos excelsos dos prazeres. Fazes pensar, oh menina, quão doce é ser pai e quão mais ainda doce é ser mãe do fruto de tão sublime amor. Que, por certo, não provimos de repolhos ou macegas, nem mesmo das entranhas de cadernos por filhos de mães escritos, iluminuras douradas incensadas e por inexiste ética pregoeira de moral castiça ou mesmo de notas em jornais e revistas. Brava, Karinne! Feliz, franca e audaz sempre vivas!

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  2. Aldo,

    quando ser inspira...beijos, amore!!!

    (Adoro receber seu carinho aqui também)

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Vamos poeticar?!