quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Memórias Póstumas de um Amor Romântico* (fragmento)


Os lábios diante do espelho balbuciam frases mudas. Encaro-me num momento de pouca lógica. Foda-se! Vejo as marcas do tempo estampando destinos. São impressões de tudo. Uma herança pobre. Paro com as frases. Deixo-me ainda mais muda. Aumentando minhas incógnitas. Mergulho em mim e uma imensidão de imagens eclodem como lembranças. Dentro é tudo tão frio quanto às paredes de azulejos deste banheiro. Ninguém vai bater na porta com pressa, pois toda a casa é inválida. Nostalgicamente vazia. Cheia de silêncios. Hoje, são as rachaduras das paredes que me inscrevem e inspiram sem nenhuma pretensão artística. A tinta fofa com suas lascas caídas ao chão. O ralo da pia que demora a escorrer. O quadro sem molduras e pregos. Desabitei-me. Emocionalmente, desabitei-me... Um cansaço anterior ou uma ansiedade romantizada e por Deus, não me fale disso... Passei a me confundir com toda mobília e retratos que sorriem. Com o zíper rasgado na lateral da almofada. Mas não importa... Não terei visitas. Você não entrará vestindo seu melhor sorriso (quase não mais sorrimos um para o outro), nem me contará sobre seu dia (desaprendemos a conversar), não estaremos lado a lado durante o jantar (pouco nos sentamos à mesa juntos) e muito menos meu corpo se aninhará ao seu, pois antes de tudo sou um peso. Um peso morto. Tal qual, aquele que prende os papeis de uma das suas principais funções, a liberdade de voar... Difícil disputar com os pássaros sorridentes... e não cheguei aqui para isso...


Karinne Santiago.

* título improvisado e material em construção.


Imagem: VITA

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