sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Saudade se escreve com V




Para Vinícius Santiago

todas as manhãs
balbucio preces

era uma vez eu (...)
os sonhos que esqueci (...)

por trás da janela
ruídos dos pneus
alguns pássaros

o verde que não mancha
certa esperança

minhas letras mortas
agasalhadas no nada

dormi com frio
garganta dói
tudo vazio

abrigo sem vínculos
um copo seco
tal qual corpo

arrumei brinquedos
na cabeceira
diminui distâncias
(tentei)

respirei seu riso
me povoei dos seus cachos
e me desculpei

Karinne Santiago.


Foto: Aquivo Pessoal

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013




reinventar-me na dor
transgredir o poema
fraudar a despedida

o amor singular
desfaz o poeta
em soluços

o verbo é mudo!

intransitivos vieses
na rota do aceno

lágrima subverte o tempo
vacilo entre lembranças
é tudo partida

estou aqui-ali-acolá
findo em milhares
para despossuir o adeus

quiçá iludo o luto
desvio a pena
em branda
ou cócegas

(sem graça)

Karinne Santiago.


Foto: Brooke Shanden

Memórias Póstumas de um Amor Romântico* (fragmento)


Os lábios diante do espelho balbuciam frases mudas. Encaro-me num momento de pouca lógica. Foda-se! Vejo as marcas do tempo estampando destinos. São impressões de tudo. Uma herança pobre. Paro com as frases. Deixo-me ainda mais muda. Aumentando minhas incógnitas. Mergulho em mim e uma imensidão de imagens eclodem como lembranças. Dentro é tudo tão frio quanto às paredes de azulejos deste banheiro. Ninguém vai bater na porta com pressa, pois toda a casa é inválida. Nostalgicamente vazia. Cheia de silêncios. Hoje, são as rachaduras das paredes que me inscrevem e inspiram sem nenhuma pretensão artística. A tinta fofa com suas lascas caídas ao chão. O ralo da pia que demora a escorrer. O quadro sem molduras e pregos. Desabitei-me. Emocionalmente, desabitei-me... Um cansaço anterior ou uma ansiedade romantizada e por Deus, não me fale disso... Passei a me confundir com toda mobília e retratos que sorriem. Com o zíper rasgado na lateral da almofada. Mas não importa... Não terei visitas. Você não entrará vestindo seu melhor sorriso (quase não mais sorrimos um para o outro), nem me contará sobre seu dia (desaprendemos a conversar), não estaremos lado a lado durante o jantar (pouco nos sentamos à mesa juntos) e muito menos meu corpo se aninhará ao seu, pois antes de tudo sou um peso. Um peso morto. Tal qual, aquele que prende os papeis de uma das suas principais funções, a liberdade de voar... Difícil disputar com os pássaros sorridentes... e não cheguei aqui para isso...


Karinne Santiago.

* título improvisado e material em construção.


Imagem: VITA



o amor enfada
se alonga no chão
como sombra estática

debaixo dos meus pés
restos de mim e a sujeira nas solas
empoeirada mesmice

vejo ao longe
tantos passantes
certa displicência
elegante correria

e eu?!
parada
escaldada
em pleno sol ao meio dia


a brisa assovia
em meus ouvidos
(ecos)
qual a charada?!

penso nessa gente
e me aborreço
tão convincente

afeto treinado escrito esboço
no cartão barato do posto
só queria a combustão

implodir
voar em pedaços
me espalhar na calçada

um vestígio humano
o corpo desenhado à giz
feito sombra do nada (...)

Karinne Santiago.