quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

não sei do amanhã além do querer (reeditado)


não sei do amanhã
além do querer

das minhas raízes
agigantou-se um anjo
com asas de lembranças
cândidas vestes familiares
vultos de risos e saudade
cicatrizes de amores e digitais

o tilintar da louça na cozinha
a manhã de domingo e visitas
o abandono do corpo na poltrona
alguém dizia o meu nome no quintal
entre as roseiras e roupas no varal

longe do ninho
jasmim pelos muros                                                                              
alfazema nos lençóis
costumes de Vó a rezar

deste abrigo, o carinho
hoje, olhos embaçados
um aperto um vazio
um verso perdido
e um sonho

danças de ausências
inquietações e estranhamentos
um mapa de fuga para consolo
um mapa astral e alguns planos

uma moldura na mala
entre roupas e livros
tantas falas e corações
um sotaque uma ponte
chinelo arrastando no chão

uma cantoria uma cantiga
um assovio
passarinhos

medo e vontade de seguir
o sol que aquece
não se esquece

o caminho de volta
meu resgate

Karinne Santiago

Imagem: Duy Huynh.

DIÁRIO EM DEVANEIO NOTURNO (parte VI)


Gosto de deter-me em nossa respiração conjugada. Em cada compasso lhe inspiro e imagino que esta seja uma nova forma de tê-lo. E sou invadida por suas mãos imaginárias que me fazem cócegas e carícias p
elo avesso. Enxerga-me na essência e sinto todos os instintos se manifestarem através do arrepio e das novas águas apesar da boca seca. Os pelos eriçados regem como batuta toda a minha orquestra. E me estiro submissa. Vulnerável ao prazer tanto que ardo em volúpia. E assim, desvenda-me instintivamente. Recorda-se de todos os sussurros destilados por nossos gozos. Dos sexos emanam todos os trajetos. Da intimidade da boca ao prazer da vulva. Partes esculpidas por seus desejos quando me recolhe na palma da mão e imprime suas marcas. E assim, molda sua Eva. Recria a mulher ao seu bel prazer. E quando me retornas, grata redesenho seus contornos com a ponta da minha língua. E agora lhe dou as cartas do meu jogo. Cobrindo com leveza seus lábios reavalio suas curvas. As brechas, as linhas minúsculas, o conjunto da sua boca, a nicotina e o café. Deslizo até o queixo. Sinto os primeiros sinais da sua barba e a pressa do cotidiano. Continuo a descer. Na pele a loção e masculinidades. Ombros e peito onde tanto me aconchego e por vezes mordo os mamilos entre risadas e olhares insinuantes. Agora são seus tons rosa que oferecem à pele pequenos gomos. E rimos. Rimos como bobos e atordoados um do outro. Novos pelos. Mais vastos. Tramam caminhos. Confidenciando o desejo ao morder as palavras dizendo o que sente pela metade. E me chamas por tantas. Tantos nomes. Rebatiza-me. Desconhece-me. E rio com malícia voltando a percorrer-me em você. Meus cabelos caem em sua pele e lhe invento, além da língua, várias outras mãos. Ajeito-lhes tantos eus e sigo...

Karinne Santiago