sábado, 10 de novembro de 2012

DIÁRIO EM DEVANEIO NOTURNO (parte V)






Quatro pétalas de diferentes tamanhos. As duas pétalas maiores assumiam sua própria maciez. Do lado externo mostravam-se aveludadas. Sentiam-se na ponta dos dedos curtos pelos em tons castanhos cobrindo-as de raridades. A mão podia tocá-las em várias idas e vindas aproveitando o volume que a destacava. Ao apertá-la formava-se um monte que não a machucava. No interior, tais pétalas eram ainda mais macias. Levemente abandonavam uma viscosa seiva que se tornava densa quando as pétalas maiores acentuavam suas cores. Escorregadias pareciam querer conduzir os dedos a lugares mais profundos da sua copa. Por vezes, como por capricho de brisa, elas pareciam estremecer. Latejando tanta beleza e prazer. Esta sofreguidão apontava para a rigidez da sua pequena haste. Que aos poucos se recolhia sinalizando sede. Era uma porção delicada. A mais sensível ao toque e muito desejada. Sempre admirada e por tal, parecia se envaidecer. Ao querer senti-la, geralmente, era necessária aproximação e logo se repercutiam vontades olfativas e gustativas. Sim, poderiam ser comidas ou devoradas a depender da fome, da boca ou do instinto. Ao ser manipulada outra linda cena se encantava em libido. A pequena parte lentamente assumia outra característica, inchava-se quase parecendo lábios femininos ao confessar segredos em puro deleite de ver aturdido seu desbravador. Nas pequenas pétalas, entre elas, um orifício. Apertado e quente. A introdução do dedo não se fazia perceber seu término. De lá retirava-se o pólen final que tornava ainda mais satisfatório introduzir qualquer outro objeto, além dos dedos. Seu interior como as demais pétalas, mostrava-se umedecido e flexível. De sensibilidade farta, convidativa e acolhedora. Fazendo-se de veste envolvente. Discreta. Depois de conduzida, adorada, como por graça, sentia-se propensa a liberar uma seiva mais grossa e farta, dando a impressão de sussurros e satisfação. Seu cheiro inebriante ficava retido no ar, nos lábios e naquele jardim. Envolvendo-nos de lembranças e sabe-se certa saudade. Uma flor de espécie tão feminina. Censurada. Omitida. Aconselhava-se, inclusive, esquecê-las em puritanismos falsos, entretanto, difícil não fazê-las peça resguardada, como flores na estufa, peça de colecionador.


Karinne Santiago

Ao amar-te...




ao amar-te dei de variar-me
em alvoreceres e auroras
fiz-me das rosas os aromas
e recolhia-me num beijo
como o jardim em desejo

ao amar-te dei de variar-me
em negrume céu ao anoitecer
consumia-me em florescência
na cadência de luas e estrelas
inundando-me de sonhos

ao amar-te dei de variar-me
em versos e dizeres de poesia
lançando-me em romance
como sina de poeta que almeja
do sentimento a permanência


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

em si: a solidão fulgura: em mim inaugura só*








impregnada de mim e singular eu
sopro restrito em canto uníssono
monólogos de reflexos únicos
apenas sou, digo-me...

dei-me absorta
a passear-me povoada
numa solidão de próprio
logo me defronto 

Karinne Santiago




* Inspiração de título: Assis Freitas

domingo, 4 de novembro de 2012