sábado, 3 de novembro de 2012


uma verdade insólita dita a regra
se amo abandono o se e reverto
meu ardor em ti...









Foto: Marlon Brando e Maria Schneider
Em O 'Ultimo Tango em Paris




meus olhos não deslizam só verdades
confessam a fome dos dias solitários
reascendem antigos brios e invadem
vestígios de amores desencontrados
















nua antecipo em suas mãos
as cicatrizes que me fazem
o arrepio da carne, a cerne
do ventre que me remete
`a bela liberdade dos seios

Karinne Santiago





meu deserto sem margem 
oscila escaldante silêncio
como a alma do tuaregue
ausente de sombra e elo
em derradeiro passo na areia

os escafandristas invadiram nosso jardim





acordei num corpo anil e trêmulo
repleto de ares ainda enluarados
que revestiam cortinas de tom pele
agitavam-se diante da larga janela
brilhosos exércitos de bailarinos nus
com flores iluminadas e arcos nas mãos
lançando certeiros em alvo invisível
escrituras ancestrais em sânscrito
e indulgências de nuvens e sementes


prostrada na sombra de gigante girassol
resguardada entre pétalas e caleidoscópio 
observava faíscas em dourados vértices
largas hastes de abajures verdes condensados
enquanto todos os deuses se recobriram de luz
e os versos em vozes-oníricas eclodiram
libertando ao meio-dia por toda grama
pentagramas e eclipse de poetas




Karinne Santiago

sexta-feira, 2 de novembro de 2012



I


não sei dizer em poesia
sobre o amor que cochila
nos braços longos da espera
onde percorre vãos labirintos
seguro sobre a linha do destino 



II


não sei calar a avidez dos versos
refeitos após as auroras túrgidas
como acalanto de promessas
onde vagam os beijos em adeus



queria recitar poesia
como numa prece
e dentre balbucios
abandonar meu corpo

Karinne Santiago




Foto: Ivana Pudar

A PALAVRA QUE ME CONSOME



V



poesia:


sou esta tez
num corpo ancestral
versando em espiral
códigos e sintaxe
adentro-me precoces traços
rabiscando sentimentos
amiúde incerteza
da sílaba muda
rastro de lembrança
numa claridade cega
neste primeiro partir
nasço estática
fecundo gesto
incesto de ideias
mímica estrofe
alonga-se


poeta:



escrevo-te
num virginal hálito
entre paladares breves
lapidando do ventre (pena)
uma porção feminina
anterior gênero
desfaço do sexo
genitália de palavras
desmanchando o símbolo
em dor maravilhada
marginal oferta
vida em branco
 manto de resma




poesia:



sina minha
narcísico grafo
desejo em vão
liberdade infinda
mordo a rima
diferentes ais
rebatiza
renasço
em falsos poetas
musas fortuitas
lento alunato
até em ti
ao confundir-me
ou esquecer-me



Karinne Santiago



 Foto: Geraldine Lechugas

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Holly Hunter
Anna Paquin
Harvey Keitel, em O Piano





" A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio. Escrevo por acrobática e aéreas piruetas _  escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio".

Clarice Lispector
em Água Viva.

DIÁRIO EM DEVANEIO NOTURNO (parte IV)


A pele envolta da boca já havia assumindo certa vermelhidão de anseio, os risos tomado os ares em libidinoso coro, os cabelos desfeitos em suores. Quando com um olhar atrevido, porém brejeiro, num hálito de anis em sentido provocativo, próximo ao ouvindo, o suficiente para escutar e sentir sua malícia, fala pausadamente, da fêmea despertada no colo. Dos desejos comovidos de inveja ao perceber o assombro do tecido quando contra a sua fibra, rompe suas tramas em rasgos proporcionais, como se milimetricamente pudesse deferir golpes com maestria contra um suposto tear. Inebriada continua como açoite aos instintos a querer reproduzir em deleite desgovernado pedido. Medindo a curvatura do dorso em gradativo contorcionismo felino até repousar segura sua tez. Volta o olhar ao canto do olho, num perfil doce, porém desafiador, deixando em dúvida quem seria o real anfitrião. Alonga-se e abandona-se de costas ao desejo.


Karinne Santiago



foto: Joe Deurr

DIÁRIO EM DEVANEIO NOTURNO (parte III)




Sua língua confessa obscenidades em meus mamilos. Enrijecendo segredos em alvos levianos e róseos. Sôfregas pausas testemunham a volúpia na pele. Ouriçando contornos e desvendando crescentes gomos ao calor da saliva. As mãos unem os dois continentes forçando suas extremidades uma contra a outra. Abocanhando selvagem os montes como a querer reverter para si os sussurros já denunciados. E os abandonam em seguida para admirá-los como troféus. Ri das marcas da gula. E despe a boca de novos repentes instigando injúrias de não acusá-lo de insano, apesar dela se encher de uma meretriz fantasia da carne. Abruptos e inocentes a delegar prazer com a vivacidade da descoberta. Desnorteados entre aromas de um cio romanceado. Novas rotas exploradas apontam para o centro destes ardores. E desliza macio acompanhando os contornos de formas amadurecidas. Solvem o tempo. Respirando um ao outro, além do arrepio. Desnudam pudores até que as mãos voltam a se encher da parte mais feminina do coração. Em ensaios e reminiscências quase infantis por tanto desejar em oralidade a dupla amante.





Foto: Google Imagens.










brotam contas alvas
de tão límpidas, nuas (...)
translúcido olhar e morno
orvalho de pálpebras
a hora vira encanto
num reflexo do cílio
trêmulos como os lábios
que balbuciam soltos
desconexo sentimento
contorço o punho
e arrasto o abandono
queixo a baixo
leve seria além do amargo

Karinne Santiago














Foto: Lili Roze

terça-feira, 30 de outubro de 2012




a menina não chorava pétalas
não caia dos olhos tal maciez
era um cravo 
vestígio de morte
era um espinho
ferido





Karinne Santiago

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

luares e farol




há coisas que não sentimos
sem os versos em ser riso
quanta luz ao longe se arrasta
banhando luares destes mares

um farol


Karinne Santiago



domingo, 28 de outubro de 2012

PROSA MIÚDA XV


tinha dado um sorriso distraído(...)
ele, amante das palavras
reconheceu como verso 




diálogo sobre miragem e cantigas noturnas


Para Assis Freitas





passamos a noite
eu, fingindo ser lua
ele, convidado palavras
confundimos estrelas cadentes
eu, fiz um pedido
ele, reticências
rimos diante do impasse
eu, sonhando acordada
ele, versando cantigas
ninamos distâncias
em miragem de ausências


Karinne Santiago