sábado, 27 de outubro de 2012

toda relutância é fruto da saudade








preciso de silêncio
implorei ao coração:
_ cala-te, não bata!
abstenha-me da dor
mesmo incompleto
pois assim é minha alma
na ausência depositada nos versos

não tenho a segurança do lírico
nenhum artifício que console
todos os dias me posto a dizer
em páginas brancas o seu nome

(apesar de não escrever em absoluto)


Karinne Santiago

tempo de ausência





densa manhã
arrasta nuvens
em cinza

verte chuva
estático tempo

vento frágil
assovio
cai na janela
o ritmo do dia

lento

pingo
após
pingo
e finjo
ser choro
miúdo

precipitação de saudade.


Karinne Santiago


Foto: MM



( in) verso da metáfora

sua língua
segredo que dissipa 
palavras em paladares
antigo diálogo amante

verbos complacentes
ordens sem imperativos
diminutivos ais 

ditos sem rima
reinscrevo a estrofe
quando deita em mim
o mote

sou o (in)verso
da metáfora.





Karinne Santiago








quinta-feira, 25 de outubro de 2012


calo num ríspido assalto do lábio
idioma que desconsidero em verso
em desgastante teimosia de forjar
certa alegria a tez desnuda

ai, essa pele opaca
de fortuitos amantes
delonga em espera
a derradeira busca

 insensatez que me recobre
amarga lágrima no lençol
prolonga as horas da perda
cicatriz tecida na seda

(num quase rasgo)


Karinne Santiago


Foto: Lili Roze


Se fosse um pássaro...

Se fosse um pássaro...


e seus lábios essa imensidão
agrupamentos astrais 
azul ao toque de Deus
uma arena de nuvens
lançar-me-ia em queda 
profano a beijar-te o tempo e o ar

Se fosse um pássaro...

afundaria minha face em bico riste
cortando latitudes em súbita planície
far-me-ia infinito num gozo de asas
perdida entre seus braços em semi-círculo
nas copas resplandeceria como faísca
do ex-amor inatingível sendo fundindo em lenda

Se fosse um pássaro...

assustaria a calma do fruto aos solavancos
provocando euforia das sombras
vislumbraria os aromas em credos
aturdindo os ninhos e orquídeas
açoitando as pragas dos jardins
nas vésperas das nascentes e enamoramento da lua

Se fosse um pássaro...

escandalizaria as gaiolas em berros libertos
rompendo argolas varrendo a ferrugem
lapidando as demandas do peito
tomaria o sonho como liberdade justa
em piruetas vadias brindaria a molecagem do riso
amanhecida em tons variantes do hoje e o passado de fuga

Se fosse um pássaro este passante...


Karinne Santiago


Foto: Photographer unknown




terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sofro de Banzo

Para Adroaldo Bauer Corrêa
e Giselle Serejo


 Banzo Saudades, falta.Originada com os escravos que ficavam com "banzo". Eles geralmente usavam esta palavra quando sentiam saudades ou falta muito dolorosa de seu lugar de origem ou de uma pessoa em especial, muitos morriam de banzo, ou melhor, durante o período do banzo.









Caetano quando te ponho em minha língua
 solvo-te em metáfora descarada
escancarada verve de bardo
desavergonhada sintaxe
e tropeço na avenida São João
pensando em Dona Canô no recôncavo baiano

eu sou neguinha, salve Castro!!
eu sou muzenza!!

de tigresa à desastrada com os astros
extraordinária felina de cara pro sol
eu danço odara nos guetos de London
desde a baixa do sapateiro e Terezas não santas
ai, Amado!!

desejo em fitinha do Bonfim
uma menina com um anel de estrela
anuncia Manhattan em pronúncia nordestina
brinco com a lua de Jorge

enfeito a trança com búzios e conchas
eu sou nagô
e nem Orfeu em Santo Amaro
híbrida!
eu sou do mar que me lambe
uma Moçambique, um Haiti
dona do seu carnaval...
e vou com a boca filosofando saudade

Karinne Santiago







Licença Poética aos Deuses





os deuses resguardaram o amor
forjando encantos como censura
trinfou sobre os humanos com o anseio da busca



disseram da face que não se configura
colocando no amado cabeça de burro
intrigas em porções decretou o sentimento
seu primeiro aspecto confundir-se com o belo
o que os olhos não conseguem desiludir



zombaria dos anjos em arcos enfeitiçados
miram ao longe a confusão das setas
ralha o tempo distâncias oblíquas
portais desvendam o trato de Hera


Vai primavera ser deleite de fuga
Rendam invernos em espelhos de cinzas





Karinne Santiago

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

amanheci deserto
melancolia era veste
fitando ao longe imensidão

o sol encandeou suor 
escorrendo como lágrima 
rolou na pele marcada
salinidades

pingou longo no seco
brotou na areia um círculo
afundou macio anunciando espera
fundiu vendavais em mim

enfim percebi
toda lembrança finda
(em poeira)

Karinne Santiago

PROSA MIÚDA XIV





a noite reflete a lua

baila cintilante na janela

olhar de vaga-lume.

PROSA MIÚDA XIII



uma lágrima projetada
destitui sorriso
em adeus ingrato


Karinne Santiago



enternecer o desejo
imacular a poesia

adormecer palavras

a lira em meu colo
versa saudade

sentimento acalentado

inscrições do afeto
no tato do destino

dizer do estar por vir

lapso da estrofe
e rima incompleta

sílaba traduzida em afeto

apazigua o sonho
ressaltado no título