sábado, 6 de outubro de 2012

PROSA MIÚDA XII






versos como conta-gotas
palavras em doses

pingam no papel


Incidente em Carmim


intenso desabafo do talvez
quando o pôr-do-sol converge a falta
e de pupilas cerradas revejo em vulto
a estática permanência da saudade

o céu se desmancha em borrão
num entardecer adormecido de estrelas
como intervalo da eternidade
em grave bocejo de fuga

impera o místico negro que varre
onírica descoberta da rota
amontoa lembranças na lápide
elegante desconforto das plumas

Karinne Santiago

inspiração de imagem: Edilberto Djuba Pires

Melodia ao vento

A canção
      não ficou retida 
             nem nos ouvidos que invadiu 
                     nem nas costas ofertadas

                     no fundo 
                             achou engraçado 
                                    ser beijo solto no ar (...)
                                            e quando terminou a letra (...)

                                                                                 flutuou assovio.


                                                                                                             fez-se eco 
                                                                                                                              de mansinho (...)






quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Equilibrista entre sonhos e caixas






Contemplo a vida sem ironias. Respeito muito meu tempo. Aprendo tanto na dor quanto no riso. Pelo chão da sala, pilhas de coisas que tenho que decidir se continuo a carregar ou se já é hora de passar adiante. Cada qual, como se pudesse falar, conta sobre algum momento que vivi. Muitas lembranças emergem, assim como, segredos e gente que já não lembro. É tudo muito mais que fechar ciclos. É me reinventar, me redescobrir. É encarar onde a falta dói ou alivia. 


Foto: Ismet Suer

domingo, 30 de setembro de 2012

DIÁRIO EM DEVANEIO NOTURNO (parte II)





Nas manhãs que se apresentam preguiçosas. Antes que o sol se antecipe nas cortinas, enrosco meu pálido corpo no travesseiro. Sinto lentamente suas lembranças me roubarem a alvura. Minha pele denuncia o desejo através do tom rosa e calores. Certa inquietação íntima parece testar a resistência das madrepérolas que acobertam meus mamilos. Afundo meu rosto contra o objeto macio e imagino que ao invés da bainha da fronha que me roça o rosto seja enfim, o seu colarinho em volta do objeto que inauguro com sofreguidão. Entre aromas e pelos que se emancipam desalinhados e ralos carimbo saudade e malícia com meus lábios.



Imagem: Lili Roze

Diário em Devaneio Noturno






Arde em meu corpo uma paixão clandestina. Tal qual, o líquido adocicado da maçã que escorre nódoa. Confronto o esmalte na casca vermelha e tensa. Sentindo as fibras se confundirem com minha saliva. Ainda de olhos fechados apesar de romper a fruta, permaneço o pensamento no dono das minhas tempestades. É onde o meu próprio mar agita-se. Numa feminilidade impiedosa que não descansa o desejo resguardado. Ah, este abrupto sentimento em meu peito, onde antecipa constelações enamoradas de espanto. Encho-me de repentes bonitos tolhidos em palavras libertinas e poemas relutantes de censura. Comungo com o mundo o espírito de aventura. E ao me tornar aflita, sinto-me amada. A vivacidade do acalanto é em diversas vezes, o sonho esperado. Desconheço a quem posso confessar meu delicioso tormento. As puritanas anáguas das batinas ou as putas escancaradas na alcova. Antes, porém, advirto não me instiga conselho. Desde o céu até o inferno ou vice-versa, prefiro o infinito oblíquo da reticência...



Imagem: Lili Roze