quarta-feira, 12 de setembro de 2012




Na próxima vida. Se ela existir realmente...Não quero vir assim, com essa sensibilidade toda. Quero ser meio frágil e meio dura, menos incomodada, menos boba. Quero acordar pela manhã e abrir o espelhinho do meu banheiro e entre os frascos de remédios e fio dental, ter uma coleção de bocas... é isso mesmo, de bocas! Algumas com expressão de raiva, de dúvida, de indiferença, de sonsa, de espertinha, de convencida, de feliz e de super feliz... Quero escolher uma boca como escolho a bolsa que combina com meu sapato e ainda ter uma daquelas caixinhas de plástico de quem usa aparelho móvel para levar comigo como coringa ou "step" em caso de alguma eventualidade... em alguma emergência. Não quero mais isso de ser delicada, sensível, emotiva...ahhh, e não quero gostar de poesia... isso nem pensar!!! Pois a poesia só nos deixa assim, com esse ar de marciano... de clichê... essa coisa de sensibilidade à flor da pele é muito piegas hoje em dia... ninguém entende nada... eu que sou euzinha, não me entendo... Essa coisa de sentir e escrever, escrever e sentir é confuso de explicar...então é isso...amanhã bem que eu poderia escolher uma expressão nova... uma boca nova só para ver no que ia dar...

terça-feira, 11 de setembro de 2012





A palavra pousou em minha boca como quem abandona o ninho sem planos. E lentamente seus significados foram sendo solvidos (ou servidos), dando-me paladares distintos. Já havia ouvido dizer que os aromas resplandecem lembranças, mas jamais cogitei que as palavras pudessem se confundir como poemas no céu da boca. Pela primeira vez, engolir calada não foi algo difícil, pois de olhos fechados degustei mil versos. E salivando quase deixei escorrer resquícios dos meus sentimentos pelos cantos da alma.





Foto: Karin Szekessy


eram olhos de salivar poesia
e boca de tatear versos
cancioneiro ambulante de ilusões
mambembe arredio entre sonhos

burlava a valsa com seu fraque
anunciando andarilho aplauso
berrando versos de amor
fortuito amante sem clichês

enriquecia o bolso de suspiros
na cartola fácil buquê de plástico
barata colônia de reembolso
sabia dar-se ao elogio
conta específica de galanteio

entre juras citava os nomes
donzelas que se enamoravam
não como lista de papel amassado
mas como coração volátil

Karinne Santiago





o tinto
depositou carmim

língua aveludada
rendida em vermelho 
adocicado aroma

quentes segredos 
solvidos em contas

montes 
ao céu da boca
destilam
detida paixão
em taças
tilintam espumas
aos goles

escorregam calores
ao colo
embaralham a voz
entre risos frágeis

desejo rotulado
por safra

Karinne Santiago

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

SAUDADE NÃO FAZ DORMIR


a falta não sabe
cantigas de ninar

bananas pro relógio!

pernilongo reza seu nome
bem baixinho no ouvido

repuxa o lençol
umedece a fronha
esquenta o peito
num sufoco
sem Vick (...)

lembrança como grilo
gruda na janela
pernoita seu riso
sobre a cama
range o colchão
e me derruba

espanta os carneirinhos
quebra a cerca
esconde a poesia

andando pela casa
primeiros raios
canta o galo
o despertador dispara

punk rock com sotaque paulista...

Karinne Santiago

Não aceitam devolução.



inexato
traço no lábio
ensaio
esboço de riso

quebrou o grafite
nasceu torto
no rosto

inacabado

porém
expressivo

o riso torto

Karinne Santiago.

Antes que seja tarde a presença



não estou
entre o desejo
e a falta

o que sou?

o esquecimento

a poesia
a contra golpes
de caneta
desvia a dor

deu um sentido
e quem sabe (...)
um afago

o amor
solveu o verso
entre os lábios
escorreu a rima

pingou no alvo
o mote

e o poeta
fingiu

a dor
mas não se desfez
da verdadeira

Karinne Santiago


Cintilar 
de lágrimas
bola de gude 
na retina

Embaça paisagem
tempestade de íris

caleidoscópios

colore a queda
pura poesia

o pranto
aos poucos
evapora a dor

impera a brisa
no ritmo da partida

entre
asas de gaivotas
e
folhas caídas
bailam nuvens
dando sopros
nas cordas da vida

logo o tempo
romantiza a chuva

pingo
por
pingo

ao sol
no varal
o sentimento
se contorce


Karinne Santiago

Não lhe basta a escuridão?



as estrelas
não adormecem 
o sonho

refletem
o sono
numa imensidão
Via Láctea

ginga
o desejo
na cauda
do astro

em disparada
inflamado risco
no triz
o destino
em pedido
de olhos fechados

Karinne Santiago



Artista: Andy Acala
Inspirado na Noite Estrelada de Van Gogh

domingo, 9 de setembro de 2012



Não me valem as lágrimas. Este pranto de antes. Não mereço nenhum despertar de desconsolo. Aos meus olhos solitários ou equivocados (como queira). Não devem cerrar a culpa das águas. Deste assombro inunda-me o espanto de achar-me tola. Digo da fonte sedenta (e desta mesma fonte) que te banhas, conheço o berço. Nascente da qual me farto. Não envergo o mastro. Redentor do remo. Inventiva onda imaginária. Amorteço em meu próprio cais, as trovas dos bardos. Não, não me alimento mais em dúvidas. Pronuncio em defesa de mim, numa capitania vertente. Alavanco minhas rotas. Não nado à toa. Longe da terra, independente, tenho o fôlego da certeza que injúrias não cometi. Leio, leio bem os mapas. E não vacilo. Antes a minha sina, mesmo que pequena. Que naufragar em violentas marés. Isso não volto! Aos versos cantarolo muito mais os meus tesouros... 





chorou estrelas
dourados sóis
serenizou cometas
resplandeceu em alvorada
a pele reluziu em via lácteas...

Karinne Santiago


TELA: Gustav Klimt

PAZ DE FERIADO


andando descalça pela casa
vestido curto e rodado
gasta estampa ao sol
algodão roça no colo
e me conforta o dia

unhas de vermelho
cabelo molhado
poesia escrita
em tatuagem
flores na janela
e muita brisa

horas lentas
pernas no sofá
chita sobre as coxas
pelos dourados e finos
casa em silêncio

paz de feriado...


Karinne Santiago

ÍMPETO DE PALAVRAS


bucólico pensar nas nuvens
e ter vontade de voar
correr nos ares
segundos de luzes
voltar em caleidoscópio
todos os beijos sonhados
inundando de cores
as íris sem despedidas
alçar o corpo
e deste encontro
a tez do desejo
em largos braços
instante do laço
minha a alma
entre as estrelas
busca a resposta
do amor predestinado
e num assombro
de luas e cometas
dizer da sorte
o destino
fazer do sentimento
algum abrigo
e renascer
em cura
avante a noite
deste breu

Karinne Santiago

desnudo o canto
aurora de vozes
repercutem ao norte
o coro da brisa

ecos de bem-te-vis
algazarram saias
arrepio do sopro
doce ventania

sussurram sinos
tempestade anuncia
cataventos rodopiam
na soleira o timbre

dão-se em notas
pingos de chuva
bate na telha
em aroma assume
a saudade do dia

gotas escorrem
verte orvalho
no clarão do céu
nuvens em cócegas
iris de vida

Karinne Santiago

SÉRIE: A PALAVRA QUE ME CONSOME


IV


a poesia:

a dor
inflamo
alastro
alardo
dilacero
em adjetivos
e sujeitos
condenso
peso
como piano
que afoga
suas notas
em silencioso
extravio



o poeta:


nasci fosco
oco
inquieto
vago
desertos
profusão
de vozes
entontecem
povoado
de abandonos
por vezes
acalento
num voo torto
absorto
trama de fuga
debruço
entre tintas
atiçando
o mote
morte




a poesia:



acordo 
muda
imprecisa
amparada
por vírgulas
em alvuras
escorrego
gemido
nua
cada 
palavra
e
palavra

palavra
pouco lida
pouco tida
porém
quando amor
calo
cálido
objeto


Karinne Santiago

SÉRIE: A PALAVRA QUE ME CONSOME


III


a poesia:

ao dizer-lhe
não incito 
troféus
detenho-me
receosa
da vitrine
expondo-lhe
numa métrica
acadêmica
dar-me
a identidade
num livro.


o poeta:

tens razão(...)
assim
vingo-me
se me detém
em seus ímpetos
lhe aprisiono
em prateleiras
até que alguém
lhe dê voz
e amacie
suas curvas
verso por verso.



a poesia:

devo agradecer
a fragilidade
em brincar de Deus
quando
o teu nome
me empresta
da vaidade
que lhe assola
passo a chamar-me 
Fome
(...) a palavra que lhe consome.



Karinne Santiago

SÉRIE: A PALAVRA QUE ME CONSOME


II


a poesia:

reconheço
a alma do poeta
meu desejo
não apetece
enclausurada
solidão
cravado
em seu ofício
o grito anotado
documenta
o risco


o poeta:

quando
me toma
ditando
estrofes
inquieta-me
entre a musa
e o verso preciso
por vezes
depois de escrito
já não se satisfaz
e recomeça
procura lamúrias
a beleza do lirismo
as mazelas
revirando-me
ao avesso
em pelo
pele
e dúvida


a poesia:

sou teu berço
não percebes?
delimito o seu ir
não deixo ruir
a altivez das letras
lhe insere memórias
nada em vão,
presumo...
e o queixume
malogro
não desconfia
que quando
lhe verso
ofereço vida (?)



Karinne Santiago

SÉRIE: A PALAVRA QUE ME CONSOME

I

a poesia:

reverto
em rima
o sentimento
abarco o mundo
do seu peito
e
em versos
sou o reflexo
do riso
do pranto
do amargo
do que mais lhe impera (...)


o poeta:

imprimo
minhas dores
tenho mais destas
que amores
estou
na contramão
sou semi torto
tombo
aos prazeres
e finjo
nova dor
tanto
que me perco
e as sinto
deveras (...)



a poesia:


resguardo
o ímpeto
que me revestes
sou maior
que o corpo do poeta
e lhe grito
por outros olhos
retidos
em mim
e
quando
adormece
sou sempre o dia
ao acordar
sou sempre o zelo
sou
o aplauso



Karinne Santiago