quarta-feira, 20 de junho de 2012

Camafeu (parte II)




Marias
Terezas, Luzias
Paulas
Anas, Elsas
Cidas

Em quantas graças
Reveste-se alva
Os versos aveludados
Desenhados em tela
Pálida
Conspiração de luares

Desmonte o monte
Fios descem a tez
Suavemente
Amparados no tempo
Emudecem a brisa
O brilho
O encanto

Trama da prata
Moldura
Enrosca na gola
Rebate no colo
Fixa-se contra pele
Desvenda aromas
Íntimo arrepio
Enternecida de beleza

Karinne Santiago

Amor entre Versos





Quando me prendes neste olhar poeta
Sinto-me, de repente, sua musa, na certa
É neste instante, que ignoro todo o resto
Quantos outros poemas desejei como meus
Em noites longas refiz seus sorrisos
Pondo-me alvo do seu desejo inquieto

Reconheço o amor confundido entre rimas
E finjo ignorar o coração andarilho
Não contenho a saudade e permaneço
Estática esperando que voltes e retenha-me
Em suas lendas distantes e que nem suponho
Observando com fascínio numa declarada paixão

Porém quando em soluços reserva-me novo adeus
Volto errante a solidão companheira conhecida
Fito o céu e não me detenho num sonho vago de lua
Almejo todas as estrelas como colar de contas
Quem sabe assim retorne ao meu colo
Quando delas precisar dizer-me do amor
Que da poesia, sim, enamora-se.

Karinne Santiago

PRAZER EM LER


Como livro de capa censurada
Põe-me à mostra(prova) diante de ti
Abre-me cuidadoso e folheia-me
Lambendo as pontas dos dedos
Entre páginas maiores e menores
Inaugurando-me em observações
Dedilha-me pauta por pauta
Num apontamento minucioso
E exclamas sobre algum ponto

Por vezes, reinicia a leitura
Atentando-se as orelhas
Refeito em pensamentos
Aproxima-se e ruboriza-me
Umedecendo os lábios curiosos
Sentindo perfume das páginas novas
Deleita-se em invenções de romance
E geme com recordações passadas

Cansa, remexe-se e ajeita-me
Mergulha em interpretações
Alinha-me aberta sobre você
Reconduz o olhar a procurar
Algum espaço escondido
Onde possa penetrar envolvido
Entre as grandes capas do livro

Parecendo saciado
Divaga apertando-me
Retoma-me as linhas
Absorve-me letra por letra
Mastiga calado os fatos
Inebriado confere-me
E depois se desvencilha
Encostando-me no peito

Karinne Santiago

Notas de Pã



Notas, notas, notas entre as folhas ecoam a flauta de Pã
Notas, notas, notas entontecem , inebriam, faíscam o ar
Bailam afrodites em gestos lançados e as saias enroscam
Rodopiam as mãos rodopiam em valsas rodopiam as mãos em valsas
Tal qual o dorso no encantamento do Fauno

Notas, notas, notas entre as folhas ecoam a flauta de Pã
Notas, notas, notas trincando os cascos insultando Hades
Desfaz o silêncio com as quebradiças folhas caídas e uivos entre os galhos
Rodopiam as rimas rodopiam as carnes rodopiam as rimas nas carnes
Enfeitiça em melodia o calor do ventre e faz sonhar as ninfas

Notas, notas, notas entre as folhas ecoam a flauta de Pã
Notas, notas, notas convergem à libido em loucas bocas dos deuses
Confundindo em sonhos clandestinos presos em verões
Rodopiam as ancas rodopiam versos rodopiam as ancas nos versos
Robusto orgulho em carnes macias liberta Koré entre ciclos da colheita
Pisoteia a beleza pela arrogância da sedução comedida

Notas, notas, notas entre as folhas ecoam a flauta de Pã
Notas, notas, notas em sobressalto neste canto e refaço
Revirar-te os quatros cantos corpo-alma-pensamento-gozo
Rodopiam marés rodopiam salivas rodopiam marés de salivas
Em som remove a censura e desfaz a culpa da maçã em prece muda
Tal qual a ira das sereias ao não conseguir do Ulisses o fascínio pagão.

Karinne Santiago