quinta-feira, 22 de março de 2012

AO GRANDE CIRCO




Erga a lona colorida em peso do inconsciente
Se vista em fantasia e deixe o espetáculo começar
Anuncie risos fartos e loucas lágrimas de euforia
Arranque suspiros como quem lança sonhos ao alto
Deixe-se conduzir do picadeiro à plateia
Marque a boca em disforme pintura, brilhos e naftalinas
Esquente o passado mambembe em curvatura condolência
Ao palco rebusque os valentes em seus fraques
Deixe o coração estabelecer o ritmo da transpiração
Gravita, esconde lenço, lança-se ramalhetes
Pombas, gelo seco e fumaça
Cartolas despejam magias e lebres bancas brincam de azes
Sorte roubada na mesa da cartomante
Mocinha arruma a mala prepara-se emancipação
Globo da morte em estridente escárnio brinca
Domadores estalam seus chicotes em risco de ar
Malabaristas arrematam tontos em piruetas mortais
Cospe chama, arremessam os pratos e o homem-bomba
Lance as facas e mirem minhas falhas
Apontem, berrem ali as minhas dores
Ilusionista mascare o sentimento e diga quem fingiu
Banda surda no fim da fila, pipoca e algodão doce
Palhaços me identificam o destino em cara borrada
Rede, varetas, plumas e lantejoulas
Serra o corpo ao meio e acerta a sua paixão
Meia arrastão leva-me fujamos a galope
Capas, saltos, coques, espadas e anões
Deixem o ensaio desdobrar o show
O medo e o riso se perderam num casamento 
Frações de segundos a rima empobrece
Desorientam os ponteiros e trancam os cadeados
Jorre água à dentro quando a lágrima cai
O público aos gritos e assovios esquecem suas vidas
A solidão de seus dias e futuros impuros
Em anedota todas as partes se configuram ali
Numa grande vitrine de arte
E o poeta apanha seu rascunho
Em luz baixa e barulho de grilo
Alarde em palavras repetidas
O fim


Karinne Santiago