terça-feira, 18 de dezembro de 2012




arremato
minha solidão a sua 

alinhavo vazios

moldo minha pele
no contorno dos seus braços
dobro o tempo e amasso

ajusto o amor
espeto o dedo

esqueço que esgarça


Karinne Santiago

Foto: Richard Calmes
lua líquida
transborda o céu
agitando-se turva

retorce a face
disforme 
sonho de estrela

cogita

asas de libélula
plena paira
todas as pontas

sucumbe

vaga-lume em clarão
pisca rotas
suspenso

inspira

escreve no calendário
amontoa lendas
desmancha-se poeta

lua sempre
lua

renasce nua






Karinne Santiago





Foto: Igor Zanin

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

DIÁRIO EM DEVANEIO NOTURNO (parte VII)





O corpo submisso sentindo a lentidão da noite ao se confundir entre convites beirando certa obscenidade. Oferece o dorso nu e alvo debruçado numa indecorosa visão de curvas e dois belos montes. Entre eles um feixe abrindo longamente a rotina da paisagem. Uma vontade lasciva de que toda aquela escuridão pudesse de alguma maneira persuadir a lógica ao começar invadir-me lentamente. Nestes ares noturnos os aromas fugidios de todas as coisas que a povoam só fazem menção ao cio. O doce das flores, a melancolia da lua, os passos dos amantes apressados deixados nas calçadas em rastros de arroubos e risadas. Em cima da cama desfeita, somente um lençol e minha boca, meus seios, meu ventre e o pecado. O suor escorre em minhas costas como se a pele maliciosamente repetisse em tentativa de salvação a palavra amém. Cada letra sendo pronunciada escancaradamente por lábios libertinos, paladares de malícia e uma sôfrega vermelhidão sem culpas. E a noite alonga-se em meu corpo. Escorrendo estrelas que as fariam adentrar em minha pessoa com a ponta da língua que esquece a função de dizer e apenas se retém a degustação. Brincando com o céu da boca certa emancipação faz cócegas e se derrama tomando toda a mucosa numa inspiração cósmica. O calor denso e envolvente arremata logo na garganta a seiva de brusca masculinidade e percebe que o sexo dos anjos advém da intensidade luminosa dos astros. Prende o gemido e sufoca ardores. Esparrama no colo e a alvura se desmancha em carmins brincando de imitar as cores do entardecer. Por vezes, parecendo adormecidas nos envolve e continuam a dialogar com a vulva em lapidada libido. Latejando ritmado o açoite. Como ao cair das horas que em velocidade galopante rompe em via crucis do desejo. A escuridão da noite é a dúvida que instiga o amante no cortejo do romance. E se embrenha em cantos íntimos. Vasculha e aconchega. Umedecem em gotas de quase precipitação. Ralha com o espaço explorando a imaginação e a fixação dos mapas astrais. Comunga dádivas e surpreende. Envolve e se agiganta em lambidas vastas. Morde os montes, mas não se esquece de beijá-los e recebê-los com o teor de sadismo convincente da possibilidade de repetições logo a cadência do onírico. De tanto salivar se ensaia hímem que seduz a lua numa alcoviteira dança sedutora. Um fado, um tango, enfim, uma maldade suposta e organizada que impera num gozo e condecora o amanhecer com vidros embaçados e uma voz tanto rouca quanto ofegante...


Karinne Santiago


Foto: by Calvin

sábado, 15 de dezembro de 2012

nó de nós


não desatei o nó
mesmo ioiô, por vezes
o amor se mascara
refaz suas caras
em versões de sentir...

em nó cego 
marco do elo
junta duas pontas
e os destinos em laço
mostram-se em curvas

nó frouxo
só amassa a fita
liberta as pontas
em lados opostos
como duas setas
logo o metro se estica


Foto: Tatyana Druz

pedidos cochichados aos deuses



brilhos cadentes vistos do alto
os sonhos bordados nos astros
universo tête-à-tête em silêncio
e o poeta alcovitando o destino.

Karinne Santiago

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Previsão Imprecisa



o tempo irônico perguntou:

_ dói cisco no olho?!

  (pimenta do vento)

 Deus avistando ao longe
 ruídos de tempestade

dobro o pescoço
ao contrário do sopro
mãos invisíveis prendem
os pés na calçada

a sola ensaia o passo
o equilíbrio vacila
agarro-me pelo casaco
e todo o resto se esvai

a lágrima, o rímel
o riso
menos a sombra
soma-se
cobre o chão
e não flutua
apesar da biruta
e do catavento

Karinne Santiago

Foto: Boris Pavlik





quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

não sei do amanhã além do querer (reeditado)


não sei do amanhã
além do querer

das minhas raízes
agigantou-se um anjo
com asas de lembranças
cândidas vestes familiares
vultos de risos e saudade
cicatrizes de amores e digitais

o tilintar da louça na cozinha
a manhã de domingo e visitas
o abandono do corpo na poltrona
alguém dizia o meu nome no quintal
entre as roseiras e roupas no varal

longe do ninho
jasmim pelos muros                                                                              
alfazema nos lençóis
costumes de Vó a rezar

deste abrigo, o carinho
hoje, olhos embaçados
um aperto um vazio
um verso perdido
e um sonho

danças de ausências
inquietações e estranhamentos
um mapa de fuga para consolo
um mapa astral e alguns planos

uma moldura na mala
entre roupas e livros
tantas falas e corações
um sotaque uma ponte
chinelo arrastando no chão

uma cantoria uma cantiga
um assovio
passarinhos

medo e vontade de seguir
o sol que aquece
não se esquece

o caminho de volta
meu resgate

Karinne Santiago

Imagem: Duy Huynh.

DIÁRIO EM DEVANEIO NOTURNO (parte VI)


Gosto de deter-me em nossa respiração conjugada. Em cada compasso lhe inspiro e imagino que esta seja uma nova forma de tê-lo. E sou invadida por suas mãos imaginárias que me fazem cócegas e carícias p
elo avesso. Enxerga-me na essência e sinto todos os instintos se manifestarem através do arrepio e das novas águas apesar da boca seca. Os pelos eriçados regem como batuta toda a minha orquestra. E me estiro submissa. Vulnerável ao prazer tanto que ardo em volúpia. E assim, desvenda-me instintivamente. Recorda-se de todos os sussurros destilados por nossos gozos. Dos sexos emanam todos os trajetos. Da intimidade da boca ao prazer da vulva. Partes esculpidas por seus desejos quando me recolhe na palma da mão e imprime suas marcas. E assim, molda sua Eva. Recria a mulher ao seu bel prazer. E quando me retornas, grata redesenho seus contornos com a ponta da minha língua. E agora lhe dou as cartas do meu jogo. Cobrindo com leveza seus lábios reavalio suas curvas. As brechas, as linhas minúsculas, o conjunto da sua boca, a nicotina e o café. Deslizo até o queixo. Sinto os primeiros sinais da sua barba e a pressa do cotidiano. Continuo a descer. Na pele a loção e masculinidades. Ombros e peito onde tanto me aconchego e por vezes mordo os mamilos entre risadas e olhares insinuantes. Agora são seus tons rosa que oferecem à pele pequenos gomos. E rimos. Rimos como bobos e atordoados um do outro. Novos pelos. Mais vastos. Tramam caminhos. Confidenciando o desejo ao morder as palavras dizendo o que sente pela metade. E me chamas por tantas. Tantos nomes. Rebatiza-me. Desconhece-me. E rio com malícia voltando a percorrer-me em você. Meus cabelos caem em sua pele e lhe invento, além da língua, várias outras mãos. Ajeito-lhes tantos eus e sigo...

Karinne Santiago

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

dois rios doces *





os olhos umedecem os lábios
salivando invertido a saudade

Karinne Santiago








*Inspiração de título: Assis Freitas
Foto: George Brassai

linear só a rota da lágrima


descontinuidade do olhar
não é descontinuidade do afeto

o horizonte
permanece mesmo após o pôr do sol...

Karinne Santiago




Foto: web

estudo sobre salinidades




o suor
desmanchou-se
na lágrima
deste desgosto
descobri
que a dor
não só amarga
pois tanto fiz
ao entregar-me
que hoje escorro
em salinidades

verso terno
borda na pele
como maresia
que volta a escorrer
novos sais
ao tempo da onda
assalto em ferrugem
o agasalho marinheiro
por tantas rotas
em salinidades

Karinne Santiago



Imagem: Angela Bacon Kidwell

terça-feira, 27 de novembro de 2012





descoloríamos os lábios
entre nossos vastos sorrisos
gemidos desordenados como preces
aos atalhos do sentir uma boca ventre

refazíamos-nos abandonados e suados
tantos líquidos confundiam os sabores
exato quanto à entrega e o salivar
este todo em demasiado nos entorpecia

víamos refletidos nos músculos e mucosas
aos espasmos, arrepios e sofreguidão
pronunciávamos injúrias aos arroubos
em carnes vivas nos denunciávamos

Karinne Santiago














fonte: mundo garcia

segunda-feira, 26 de novembro de 2012





ai, poeta!
não despetale todo jardim
para falar do sentir

se acredita em bem-me-quer
apenas queira (...)
e esqueça a lenda 
de ser feliz 

sabe bem da sina
e não atormente as abelhas


Karinne Santiago



o passarinho
veio jardinar
em minha janela

canto de rosa menina
tão amiúde
que perfumou as asas

agregou as penas em ramalhete
e se clorofilou num voou 

Karinne Santiago

domingo, 25 de novembro de 2012


I


rodeada de vozes
povoada de sorrisos
inebriada de cheiros
demasiadamente nua de mim

II


visitada por lembranças
explorada por respostas
negligenciada por ausências
delicadamente abandonada de mim

III


impregnada por verbos
mordida por olhares
desmentida por anseios
desejosamente esquecida de mim

Karinne Santiago

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

amores de ontem


risos amarrotados
beijos borrados
escorrendo-nos
ao pé da porta
nas paredes esmaltadas

saltos desnudos
abraços convites
ecoando-nos
no brim das cortinas
nas datas das fotografias

dedos desbravadores
arrepios atalhos
denunciando-nos
no desalinho do tapete
nos abajures aos tombos

arremessos dos instintos
balés das bocas
salivando-nos
cruzam cabides
ternos e meus colares

lençóis de suores
travesseiro no peito
desfeito-nos
fantasia de menino
sonho de mulher

Karinne Santiago












esculpe em nós as luzes do cais
o balançar das sombras de nossos risos
nas enchentes de marés e luas cheias

uma nau corta a placidez da água
romanceando o farol aos rodopios
entre espumas redesenhando a praia
entre pegadas solitárias e conchas vazias

estrelas em melancolia são mais que o negro
em versos complacentes de beleza invertida
piscam rotas libertas num caminho instável
a brisa cochichando mergulhos e o calor do dia

Karinne Santiago

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

direi ao amor sobre a vida


direi ao amor sobre a vida
em diminutas partes

do partir

resquícios de rima pobre
ficaram retidas na retina
disfarçados como lágrima
de um pranto tímido e amiúde

a indecisão

amola as pontas da ruína
aprimorando a fenda do corte
adormece o gigante sem destino
deste agora o quase se rompe

o retorno

a palavra presa e inconclusa
dobra-se ao passado em busca
revendo as placas das idas
numa resolução do abraço

a chegada

era uma veste alinhada
num molde acertado de almas
preso no peito arremate 
no lábio dor de saudade

o permanecer

o instante se finda
em prolongamento do estar
cogitações finais de alinhavo
resto de tanta vigília

a poesia

o alvo e o elo
as traduções e o por vir
era o pacto do aconchego
da palavra ao beijo

Karinne Santiago


Foto: Norman Parkison





segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Mote, poema a 4 mãos




Julguei divindade
os lábios do desejo
incontidos segredos

do amor
um deus adormecido
como saboroso unguento

encontro inervado
no encanto
distraímos-nos

afrontamos
fomos também deuses
(nossos próprios)
em devoção dupla

redoma poética
êxtase de versos
línguas em festa

rimas, esferas
repartimos-nos
devoramos-nos

fomos a palavra descalça
livre de riscos,
fomos nossos outros
além do osso, da carne
a libido em seresta,
os donos do tempo

o homem dos lances,
a seta do dia

na rua, dos sentimentos
nus

Poema escrito por Karinne Santiago Carmen Silvia Presotto entre leituras e comentários… conVersares!!


Foto:Paul Von Borax

sexta-feira, 16 de novembro de 2012











       

a língua com suas desculpas lascivas
desapropria a consciência e a lógica
emerge fortuita entre rimas e sinas
convincente impera instintos ou taras
para todos os seus desejos e sabores
vestes e rasgos de rendas e carnes


Karinne Santiago










tenho dito sobre o amor meias mentiras
pensando ser possível desvendar suas verdades
se não completo o que sinto e me permito apenas ser
reencontro em algum lugar certo ar de infinito

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

sob certo olhar...



montes alvos e rígidos afrontavam meu horizonte
a visão de elevadas planícies quase sôfregas 
de um desejo inicial emanava do colo ao afago
respostas em córregos de límpidos fluxos
conspiravam masculinidade diante da bela paisagem

percorrer aqueles contornos como desbravador
apropriando-me de terras vis vagando entre vales
afundando anseios como meus espasmos
diante da vontade de tomá-los e solvê-los
ávido por me confundir em jocoso gozo

a textura do relevo ia sendo desvendada
palmo a palmo e de suores a suores
encostava-lhe ereto e latejando todo corpo
vibrando em carne viva e em tantas pulsões
numa volúpia impregnada de ardores e repentes

um corpo de prazeres expostos desde início
sensível em todas as menções de contato
adentra e alastra em gotas despedidas de pudores
aos solavancos entre a altivez feminina
num reduto de maciez e arrepios

coroando-me em estocadas e entre sussurros
a geografia do refúgio era o abrigo
a casa entre as distâncias em poucas culpas
e por vezes julgava nossas bocas
outro recanto de atmosfera efêmera.

 Karinne Santiago


Foto : Jan Saundek