quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Dias de Paz



Em pé e descalça na ponta da praia meus dedos afundam em tom palha. Minúsculos grãos correm ao seu contorno. Amontoam-se e desfazem-se da arrumação da última espuma. Até que mais uma vez ela em sua inquietação costumeira contempla-me alva e límpida, a gélida água, porém em conjunto, quase anil. Sorrio com o convite, mas não me encorajo de lançar-me em seu ventre e somente fixo o olhar no horizonte bonito. Ouço ao longe o menino de cabelos cacheados a brincar. Concentrado explorador. Com pás a escavar tesouros pueris de piratas e marujos. Uma tripulação imaginária em adocicada fantasia. O vento agita seus castanhos reforçando suas aventuras. Posso abrir os braços esticando as mãos ao norte abraçando a vida e a sorte. Reclino a cabeça e deixo que os cabelos sinalizem a rota que devo seguir. O tecido do vestido conspira em cócegas e sinto-o ainda mais leve. Tento ineficaz ensaiar um coque, mas o monte se desfaz bem mais rápido. Volto a olhar em frente. Dou passos curtos em direção arbitrária. Não tenho para onde ir e não pretendo partir. Caminho lentamente. Faço um círculo. E o vestido arqueia para bem acima dos joelhos. Baixo-o em desatinada timidez, mas logo solto uma gargalhada sobre tamanha tolice. Sem rotina. Não tenho horas. E me ocorre que a idade fica bem melhor assim. A quem o tempo me denunciaria? Cálculos em vão. Vou à parte seca, entretanto, mas fofa. Rendo-me a permanecer inerte. Estico as pernas para em seguida cruzá-las. Largo-me com mãos espalmadas ao chão e a criança chega faceira. Beija-me crocante lambuzado de areia. E corre ao retorno da sua liberdade. Penso como cresceu ligeiro. E ele, como a adivinhar meus pensamentos, me sorri confiante e me emociono em muito zelo. Quem ama suas crias sabe ao que me refiro. E permaneço agora, com o queixo apoiado no ombro. Olhando para tudo além. Como numa miragem, como numa visão que prenuncia futuros. Fico a mirar o nada e almejando o tudo. E me perco em silêncio por alguns instantes. Ouço a praia, a infância e o meu coração. Uma delicada sinfonia. Rebuscada harmonia que me invade. 

Karinne Santiago

Arte Gráfica: Flávio Castorino