sábado, 20 de agosto de 2011

Quando se ama o Poeta


É mais bonito o amor quando se ama o poeta?! O poeta é angustiado em sentido pleno do sentimento. Ele reconhece cada mínimo detalhe da chegada e partida do amor a ponto de se pôr em testemunho ao escrever sua própria dor. Agoniza e propaga sua métrica em troca de alguma palavra que corrija os impasses do destino. O poeta é sonhador. Desconhece a fronteira da fantasia e da realidade. Enche-se de alegria e simplifica carinhosamente mundos distantes. Brinca com o tempo, com a lógica, com a saudade. Acredita com ímpeto que consegue lidar com esta transição até que chora com a caneta na mão sem saber desviar seu pobre coração da crueldade dos homens e de suas musas. Fragiliza-se até adormecer cansado e depois volta a procurar forças através de sua inspiração. E assim, constrói sua nova capa, outro romance e um novo futuro desamor. O poeta parece condenado a saber tudo e nada sobre o amor. Objeto de desejo por vezes, fatigado, mas sem perder seu idealismo. E dele rebusca um hino que cantarola às escondidas. É de onde redefine seu riso, pluraliza lágrimas, se refaz dos lampejos e da ira e se reconforta na poesia e principalmente, se recupera de si mesmo. Cabe o amor inquirir o poeta sobre o que o faz mutante. De que matéria é feita sua carne? O que pretende? Qual o seu norte? Neste momento, o amor berra como um oráculo: _“ Diz doente, de onde tiras tanta esperança e depois diga o que queres de mim?”. Pois sou apenas um sentimento que dos teus olhos, poeta, me faz tão belo. É você, poeta, que me traduz e que me inventa... E é assim, que o poeta mostra sua principal face. A loucura. O poeta é um louco. Que do verde enxerga lilás. Que do brando a tempestade. Joga como semideus de ser o seu próprio Deus. Sua escrita em lira e flauta seduz olhares e ouvidos. Espalha sua ilusão insolente em fazer do amor o que de mais belo acredita existir, o que de mais forte pode repartir, o que de mais desejoso se torna áspero em descrença e ovacionado como cura. É a ilusão que guardas em trunfo. Desafia o mundo. Provoca euforia. Ao mesmo tempo oferta-te paraíso e inferno. Deserto ou floresta. O amor do poeta te faz grande e desconhecido. Místico e incrédulo. Torna-te pretexto, presa abatida em excitação. E por último, infantil e aprendiz.
Karinne Santiago

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Devaneio Particular

O sol arrasta a sombra do dia até a metade da sala. Estico a perna. Dedos rentes. Unhas vermelhas lado a lado. Passo a ponta do pé nas poeirinhas que bailam em raio. Aos poucos a pele esquenta. De clara, agora rosa. Confundem-se em movimentos desconexos. Assim, acompanhada de uma respiração lenta. Fico aqui a brincar com o sol e penso quais pedaços do mundo trouxeram para mim? Será que o vento que as carregaram tocaram seu corpo? Afagaram seus cabelos de tom cinza? Se enroscaram em sua barba por fazer? Alisaram seu peito quase a se misturar com meu anseio? Ou lhe trouxeram recordações minhas? Será o vento (ou o tempo) capaz de preencher distâncias? E é o seu sorriso que escuto. Nesse quase faz de conta de nós dois minha voz traz o bem que você me faz. Ecoando mansinha, doce, certa do alvo. O que se configura entre desejos? Nesse jogo oculto entre homem e mulher? Penso que sejam matérias-primas do amor. Regras dessas historinhas de seduzir. Você se diverte com a menina que finge ser dona de si. Você se comove com a mulher que trago aqui. E mordisco o lábio pensando em seus sabores. No fino trato de deixar você no ponto de amar. Você é o outro lado do poema, da poesia, da minha rima perfeita. São palavras em verbo intransitivo e correto. Imperativo. É presente e pretérito. Minha aposta de ser feliz. É o convite. É minha ansiedade e euforia. Respiro outra vez, pausadamente, e percebo que a poeirinha se acalmou. Repousou em cantinhos invisíveis. Desconhecidos da minha razão. Não deixou evidências de sua chegada, muito menos da sua partida. Deram seu recado. Entardeceram. Vão com as estrelas. Reluzem. Desestabilizam minha visão comum. Ofuscam. Encandeiam-se como a paixão. Eternizam. Profetizam. Levantam nossos olhares ao céu e recomeçam.


Karinne Santiago

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Amante


A vaidade do amante repercute nos seus artífices para seduzir. O amante enaltece a amada no tempo que antecede seu próprio enaltecimento. O corpo da amada é reflexo de sua audácia e aventura desmedida. O amante é um animal feroz contido em passos cadenciados em torno da sua presa. Sabe que cada gesto possui um simbolismo omitido. A maior graça do amante é observar a amada em silencio resguardado como segredo que aos poucos vão deixando rastro de suas andanças entre lençóis. Convida a noite como testemunha. Apresenta estrelas que entontecem e misturam-se com o brilho do olhar do amado. Um olhar alcoviteiro e insaciado de um suspiro inacabado para transcorrer como sonho as noites em claro. Tendenciosa é a vaidade do amante que perspicaz encontra no tempo, espaço de revigorante vontade. Mescla de urgências e torpor. De uma saudade que quase beira o egoísmo. O amante percebe-se mesquinho ao saber conduzir seu sorriso, corpo e palavras como maître a um banquete e muito sabe que desse deleite é náufrago temporário. Retifica seus instintos como poesia. Rebusca de magia as fantasias. Determina o gozo em seu esplendor. A vaidade do amante é na lógica perfeita de sua pulsão. É a libido governante. O discurso inebriante em seus lábios de um amor demasiadamente esperado. O sentimento refinado. O encontro inevitável. O gozo escancarado e perplexo. A vaidade do amante é um paradoxo ou um grande engano que sua mente desfaz diante do belo. Para o amante a carne é hilariante. O temor é aspecto ligeiro. É o retorno perfeito do que sempre soube ofertar fazendo entender simplório. Testemunha exata de um sentimento de tresloucada carência...

Karinne Santiago