quinta-feira, 14 de julho de 2011

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente…

E só então a gente poderá amar, de novo.

( Martha Medeiros)


...Estranho... hoje tenho pesadelos com o seu olhar...todo aquele sentimento, hoje, é oco como o silêncio, lugar onde não ecoam sons, vozes, uivo, desalento...nada...nada de espécie alguma. Nem de alegria nem dor. Nem de raiva, rancor ou qualquer coisa assim que ao menos me desse algum tipo de energia...rastro de pólvora, mas cordão da bomba molhado...Te cumprimentaria por educação num aceno ligeiro...guardei tudo que ganhei numa caixa que na etiqueta não consegui escrever nada...Hoje, seu lugar é ali...lá no alto...com as malas...

Karinne Santiago

DESVENDA-ME


Desvenda-me

Cerra-me os olhos com as palmas das suas mãos morenas. Aqueça-me em seu calor perturbador dos meus sonhos. Sinta-me frágil, adocicada e viva. Na contagiante euforia da entrega. Percorra-me minuciosamente em silêncio ofegante. Busque-me selvagem e indecente. Conforta-me nociva e aparente. Proteja-me da ira e da inveja da nossa nudez. Encare-me em ousadia generosa. Desperte-me pulsões sem gentilezas. Morda-me voraz e loucamente. Arranque-me vestes, receios, dores e sussurros.

Desvenda-me

Aperte-me contra seu corpo moreno, seus pêlos negros e de tons cinza. Entrega-me a mulher que ofusquei. E o tempo contribuiu algoz dos meus planos. Transporte-me elegantemente nesta dança a sós. Construa-me anjo ou meretriz. Disfarça-me da injúria imprudente de um coração ausente. Perdoa-me as fantasias desfeitas. Silencia-me fantasmas e prantos. Reconduza-me suave e em falsa inocência. Perturba-me desta quietude certa. Rouba-me para tudo que sempre na distância fomos e que de perto se limitou melindrosa vontade do acerto.

Karinne Santiago

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Corpo Nu


Andar nu não é somente despir o corpo. É acima de tudo reconfortar-se no vazio. No vazio anterior onde ali cintilava o olhar severo da vergonha, o tom inquisidor da censura, o descompasso do medo e inclusive, a curiosidade e avidez do desejo. Cada gesto em nova liberdade numa cadência silenciosa da carne. Ventre milagroso gerador de vida. Pele aromatizada de um frescor engarrafado numa contraditória versão olfativa. O corpo nu inspira o amante em condecorada libido, o poeta desavisado colecionador de rimas, o artista caçador do belo. O corpo nu não tem o que esconder. O exílio da aparência. Sinais do tempo, cicatrizes de uma história, o óbvio convincente. Seja de riso ou lágrimas. Amarguras e repressão. O corpo nu jamais é somente um corpo nu.

Karinne Santiago