quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Devaneio Particular

O sol arrasta a sombra do dia até a metade da sala. Estico a perna. Dedos rentes. Unhas vermelhas lado a lado. Passo a ponta do pé nas poeirinhas que bailam em raio. Aos poucos a pele esquenta. De clara, agora rosa. Confundem-se em movimentos desconexos. Assim, acompanhada de uma respiração lenta. Fico aqui a brincar com o sol e penso quais pedaços do mundo trouxeram para mim? Será que o vento que as carregaram tocaram seu corpo? Afagaram seus cabelos de tom cinza? Se enroscaram em sua barba por fazer? Alisaram seu peito quase a se misturar com meu anseio? Ou lhe trouxeram recordações minhas? Será o vento (ou o tempo) capaz de preencher distâncias? E é o seu sorriso que escuto. Nesse quase faz de conta de nós dois minha voz traz o bem que você me faz. Ecoando mansinha, doce, certa do alvo. O que se configura entre desejos? Nesse jogo oculto entre homem e mulher? Penso que sejam matérias-primas do amor. Regras dessas historinhas de seduzir. Você se diverte com a menina que finge ser dona de si. Você se comove com a mulher que trago aqui. E mordisco o lábio pensando em seus sabores. No fino trato de deixar você no ponto de amar. Você é o outro lado do poema, da poesia, da minha rima perfeita. São palavras em verbo intransitivo e correto. Imperativo. É presente e pretérito. Minha aposta de ser feliz. É o convite. É minha ansiedade e euforia. Respiro outra vez, pausadamente, e percebo que a poeirinha se acalmou. Repousou em cantinhos invisíveis. Desconhecidos da minha razão. Não deixou evidências de sua chegada, muito menos da sua partida. Deram seu recado. Entardeceram. Vão com as estrelas. Reluzem. Desestabilizam minha visão comum. Ofuscam. Encandeiam-se como a paixão. Eternizam. Profetizam. Levantam nossos olhares ao céu e recomeçam.


Karinne Santiago

2 comentários:

Vamos poeticar?!