terça-feira, 12 de julho de 2011

O Corpo Nu


Andar nu não é somente despir o corpo. É acima de tudo reconfortar-se no vazio. No vazio anterior onde ali cintilava o olhar severo da vergonha, o tom inquisidor da censura, o descompasso do medo e inclusive, a curiosidade e avidez do desejo. Cada gesto em nova liberdade numa cadência silenciosa da carne. Ventre milagroso gerador de vida. Pele aromatizada de um frescor engarrafado numa contraditória versão olfativa. O corpo nu inspira o amante em condecorada libido, o poeta desavisado colecionador de rimas, o artista caçador do belo. O corpo nu não tem o que esconder. O exílio da aparência. Sinais do tempo, cicatrizes de uma história, o óbvio convincente. Seja de riso ou lágrimas. Amarguras e repressão. O corpo nu jamais é somente um corpo nu.

Karinne Santiago