domingo, 11 de dezembro de 2011

Noite Clara



Indicador a tocar a boca. Psiuuuu. Guarda sua demanda para você. Hoje, sou eu quem provoco insensatez a favor dos meus impulsos. Audaciosos mistérios com os quais sabemos jogar. Eu, fêmea e você, o que eu quiser... Seja, o homem e depois de cansados, meu garotinho. À mercê de desatinos ditos através de olhares. Julgados maldosos, mas a voz rouca logo sentencia como liberta. Dispo vestes e me recomponho em fantasias. Construiu a mulher da maneira mais rara. Sem delimitar misturas. Dando indício da carência. Dando indicativo da malícia. Dando palco à revelia. Quando amante. Os lábios serpenteiam curiosos seus sabores. Por vezes pêlos, outras, carne. Devoro-te sôfrega. Inebriada censura. Desmitificada volúpia. Não quero e não vou me comportar. Encerro as boas maneiras. Deixo o desejo rimar com o tempo tudo aquilo que não se anuncia. Arremato meus dedos contra sua nuca e brinco com seus sentidos através de todos os seus segredos. Que agora meus, os realizo a conjugar prazer como verbo imperativo. Adornos. Felina. Amazonas. Submissas luzes clareiam sombras indicando íntimos caminhos. Deslizes. Insinuações. Intensa e profunda insistência. Desvairadas repetições. E numa quase pena, certa candura a tornar mais lenta minhas pulsões. Aromas primitivos. O que mais verdadeiro guardas em mim. Ousado. Natural. Conjunto enigmático a fitar a dama. Antes sedenta. Atual, encantada. Quando mulher. Apaixonada. Olho-te admirada. Reorganizo no peito acelerado reconhecimento da paz. O ar se configura ofegante e desfeito de temores. Silêncios. Boca seca ao contrário da pele. Juro sentimentos como incontáveis reencontros ou saciada procura. E lembro-me dos sonhos. Interrogativas do destino. E logo suas falas me tomam. Arriscam respostas igualando esperas. E deito nos seus braços por mais alguns instantes. Ex- louca. Desorientadas virtudes. Quando menina. Reconforta-me esperanças e alimenta-me de contos e cores. Do qual personagem certeiro é andante cavalheiro. Figura inaugural. Germinada idéia. Brinca com meus cabelos. Volto ao anjo. Inerte fragilidade. Movimentos lentos nas pontas dos dedos.     Quase ludibria da minha inocência e guarda-me em lembranças. Resgata-me delicado. Retoma condutor. E gosto desta versão. Que seus cinzas sejam guia da minha descompromissada poesia.

Karinne Santiago

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Novas datas








Punhado de água contida nas palmas das mãos
Submersas linhas em tramas traduzem o destino
Gotas dispersas seguem seu rumo ao vento
Esvaziam o tempo entre meus dedos
Outros nos braços escorrem vida
A rota diverge o habitual em exceção  
Respingando em meu vestido partidas e chegadas
E uma mancha se destaca do demais tecido
Logo atinge nova tonalidade e desvenda calafrios
A pele se recolhe como os lábios num beijo
Gelada água iguala censuras e decepções
Seguindo seu rumo em meu quadril
Recorda-me sussurros e promessas ritmadas
Que leve inundam desejos
Traçados reveladores
Deslizam coxas e pernas
E me falam dos caminhos
Das escolhas, tropeços e sobre o prosseguir
Nos pés notas prematuras translúcidas plagiando orvalho
Reflexos em arco-íris do ontem e futuros
Bailam novamente em dedos como raízes
Que de longe se configuraram firmes
Alvos e rosa, pequenos e quase cansados
Contam muito mais de onde vim.

Karinne Santiago


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Bailarina em Caixinha de Música







De veludo negro é escuro o céu num macio estático
Sem ensaios ou orquestras em tampa aberta persuadir sentidos
Não fostes da maneira que quisera a rodopiar em notas
Negas o olhar perplexo a admirar-te bela, única e solitária
Baila candura a lamentar imperativos neste chão de vidro
Conduz sem atrito música repetida num reflexo cintilar
Os quais serão apenas por ti até quando de cordas precisar
Demi-plié
Tendu
Arabesque
Passé 

Esconde em sua fronte decotes imagens e feitiços
Lânguidas mãos alvas, pálida altivez, porcelana atemporal
Desconsidera em credos o verdadeiro amor por não saber entender
Numa aspiração de deusa, anjo, menina, fantasia ou lenda
Qualquer coisa que não se tenha,  que não se invente, mitológica
Intrigante figura de leveza inquestionável e beleza mística
Ponta dos pés a levitar no ar de profunda imaginação
Attitude
Pirueta
Sissone
En arrière

Cativeiro de sonhos e vastos pensamentos a exclamar
Por tamanha beleza em tule, cetim e seda
Enigmática expressão de vida ou morte ou o além que exista
Doce tangente do corpo no quase cair ao erudito
Até que se quebre de repente artigo íntimo e insolente
Que das mãos de uma criança se desfaz em aplausos
Até que se console em poeira seu último espetáculo
Balancé
Croisé
Deboulés
Plié

Karinne Santiago


domingo, 2 de outubro de 2011

POEMINHA IMPROVISADO






Deixei de pensar somente em mim
Quando meu coração deu conta de nós dois
E a música me conduziu em brisa
Como leves notas de uma melodia
Espalhando boas vindas
 Para quem de longe anuncia um novo amor

Deixei de pensar somente em mim
Quando meu coração serenizou a solidão
E meus dias coloriram-se de repente
Como borboletas em arco-íris
Num turbilhão incandescente
Trazendo sorrisos como caleidoscópios

Deixei de pensar somente em mim
Quando meu coração se emocionou acrobata
Transcorrendo no ar piruetas transparentes
Despertando nos olhos quase amedrontados
Robusta profusão de sentimentos
Que em pé se aplaude
E do suspense reescreve capítulos à parte

Deixei de pensar somente em mim
Quando meu coração compreendeu o truque
E descartou de vez a previsão sobre o calendário
Que apenas de mágoa sobreviveria
E feliz jamais voltaria a ser

Karinne Santiago






terça-feira, 20 de setembro de 2011

  




Não quero a sorte de nada tranquilo...quero inquietar...ao invés de vida cor de rosa...quero um arco-íris...


                                                        Karinne Santiago 

domingo, 18 de setembro de 2011







Sou um ser de riso e poesia...e vez por outra... adormeço...me convenço e me apaixono...


Karinne Santiago





O poeta nunca lhe ofertará respostas lógicas. Ele nem sabe o que fazer com a lógica. É como um ser à parte que o interroga na busca de um métrica que o sentimento contesta.


Karinne Santiago

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Dias de Paz



Em pé e descalça na ponta da praia meus dedos afundam em tom palha. Minúsculos grãos correm ao seu contorno. Amontoam-se e desfazem-se da arrumação da última espuma. Até que mais uma vez ela em sua inquietação costumeira contempla-me alva e límpida, a gélida água, porém em conjunto, quase anil. Sorrio com o convite, mas não me encorajo de lançar-me em seu ventre e somente fixo o olhar no horizonte bonito. Ouço ao longe o menino de cabelos cacheados a brincar. Concentrado explorador. Com pás a escavar tesouros pueris de piratas e marujos. Uma tripulação imaginária em adocicada fantasia. O vento agita seus castanhos reforçando suas aventuras. Posso abrir os braços esticando as mãos ao norte abraçando a vida e a sorte. Reclino a cabeça e deixo que os cabelos sinalizem a rota que devo seguir. O tecido do vestido conspira em cócegas e sinto-o ainda mais leve. Tento ineficaz ensaiar um coque, mas o monte se desfaz bem mais rápido. Volto a olhar em frente. Dou passos curtos em direção arbitrária. Não tenho para onde ir e não pretendo partir. Caminho lentamente. Faço um círculo. E o vestido arqueia para bem acima dos joelhos. Baixo-o em desatinada timidez, mas logo solto uma gargalhada sobre tamanha tolice. Sem rotina. Não tenho horas. E me ocorre que a idade fica bem melhor assim. A quem o tempo me denunciaria? Cálculos em vão. Vou à parte seca, entretanto, mas fofa. Rendo-me a permanecer inerte. Estico as pernas para em seguida cruzá-las. Largo-me com mãos espalmadas ao chão e a criança chega faceira. Beija-me crocante lambuzado de areia. E corre ao retorno da sua liberdade. Penso como cresceu ligeiro. E ele, como a adivinhar meus pensamentos, me sorri confiante e me emociono em muito zelo. Quem ama suas crias sabe ao que me refiro. E permaneço agora, com o queixo apoiado no ombro. Olhando para tudo além. Como numa miragem, como numa visão que prenuncia futuros. Fico a mirar o nada e almejando o tudo. E me perco em silêncio por alguns instantes. Ouço a praia, a infância e o meu coração. Uma delicada sinfonia. Rebuscada harmonia que me invade. 

Karinne Santiago

Arte Gráfica: Flávio Castorino


sábado, 20 de agosto de 2011

Quando se ama o Poeta


É mais bonito o amor quando se ama o poeta?! O poeta é angustiado em sentido pleno do sentimento. Ele reconhece cada mínimo detalhe da chegada e partida do amor a ponto de se pôr em testemunho ao escrever sua própria dor. Agoniza e propaga sua métrica em troca de alguma palavra que corrija os impasses do destino. O poeta é sonhador. Desconhece a fronteira da fantasia e da realidade. Enche-se de alegria e simplifica carinhosamente mundos distantes. Brinca com o tempo, com a lógica, com a saudade. Acredita com ímpeto que consegue lidar com esta transição até que chora com a caneta na mão sem saber desviar seu pobre coração da crueldade dos homens e de suas musas. Fragiliza-se até adormecer cansado e depois volta a procurar forças através de sua inspiração. E assim, constrói sua nova capa, outro romance e um novo futuro desamor. O poeta parece condenado a saber tudo e nada sobre o amor. Objeto de desejo por vezes, fatigado, mas sem perder seu idealismo. E dele rebusca um hino que cantarola às escondidas. É de onde redefine seu riso, pluraliza lágrimas, se refaz dos lampejos e da ira e se reconforta na poesia e principalmente, se recupera de si mesmo. Cabe o amor inquirir o poeta sobre o que o faz mutante. De que matéria é feita sua carne? O que pretende? Qual o seu norte? Neste momento, o amor berra como um oráculo: _“ Diz doente, de onde tiras tanta esperança e depois diga o que queres de mim?”. Pois sou apenas um sentimento que dos teus olhos, poeta, me faz tão belo. É você, poeta, que me traduz e que me inventa... E é assim, que o poeta mostra sua principal face. A loucura. O poeta é um louco. Que do verde enxerga lilás. Que do brando a tempestade. Joga como semideus de ser o seu próprio Deus. Sua escrita em lira e flauta seduz olhares e ouvidos. Espalha sua ilusão insolente em fazer do amor o que de mais belo acredita existir, o que de mais forte pode repartir, o que de mais desejoso se torna áspero em descrença e ovacionado como cura. É a ilusão que guardas em trunfo. Desafia o mundo. Provoca euforia. Ao mesmo tempo oferta-te paraíso e inferno. Deserto ou floresta. O amor do poeta te faz grande e desconhecido. Místico e incrédulo. Torna-te pretexto, presa abatida em excitação. E por último, infantil e aprendiz.
Karinne Santiago

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Devaneio Particular

O sol arrasta a sombra do dia até a metade da sala. Estico a perna. Dedos rentes. Unhas vermelhas lado a lado. Passo a ponta do pé nas poeirinhas que bailam em raio. Aos poucos a pele esquenta. De clara, agora rosa. Confundem-se em movimentos desconexos. Assim, acompanhada de uma respiração lenta. Fico aqui a brincar com o sol e penso quais pedaços do mundo trouxeram para mim? Será que o vento que as carregaram tocaram seu corpo? Afagaram seus cabelos de tom cinza? Se enroscaram em sua barba por fazer? Alisaram seu peito quase a se misturar com meu anseio? Ou lhe trouxeram recordações minhas? Será o vento (ou o tempo) capaz de preencher distâncias? E é o seu sorriso que escuto. Nesse quase faz de conta de nós dois minha voz traz o bem que você me faz. Ecoando mansinha, doce, certa do alvo. O que se configura entre desejos? Nesse jogo oculto entre homem e mulher? Penso que sejam matérias-primas do amor. Regras dessas historinhas de seduzir. Você se diverte com a menina que finge ser dona de si. Você se comove com a mulher que trago aqui. E mordisco o lábio pensando em seus sabores. No fino trato de deixar você no ponto de amar. Você é o outro lado do poema, da poesia, da minha rima perfeita. São palavras em verbo intransitivo e correto. Imperativo. É presente e pretérito. Minha aposta de ser feliz. É o convite. É minha ansiedade e euforia. Respiro outra vez, pausadamente, e percebo que a poeirinha se acalmou. Repousou em cantinhos invisíveis. Desconhecidos da minha razão. Não deixou evidências de sua chegada, muito menos da sua partida. Deram seu recado. Entardeceram. Vão com as estrelas. Reluzem. Desestabilizam minha visão comum. Ofuscam. Encandeiam-se como a paixão. Eternizam. Profetizam. Levantam nossos olhares ao céu e recomeçam.


Karinne Santiago

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Amante


A vaidade do amante repercute nos seus artífices para seduzir. O amante enaltece a amada no tempo que antecede seu próprio enaltecimento. O corpo da amada é reflexo de sua audácia e aventura desmedida. O amante é um animal feroz contido em passos cadenciados em torno da sua presa. Sabe que cada gesto possui um simbolismo omitido. A maior graça do amante é observar a amada em silencio resguardado como segredo que aos poucos vão deixando rastro de suas andanças entre lençóis. Convida a noite como testemunha. Apresenta estrelas que entontecem e misturam-se com o brilho do olhar do amado. Um olhar alcoviteiro e insaciado de um suspiro inacabado para transcorrer como sonho as noites em claro. Tendenciosa é a vaidade do amante que perspicaz encontra no tempo, espaço de revigorante vontade. Mescla de urgências e torpor. De uma saudade que quase beira o egoísmo. O amante percebe-se mesquinho ao saber conduzir seu sorriso, corpo e palavras como maître a um banquete e muito sabe que desse deleite é náufrago temporário. Retifica seus instintos como poesia. Rebusca de magia as fantasias. Determina o gozo em seu esplendor. A vaidade do amante é na lógica perfeita de sua pulsão. É a libido governante. O discurso inebriante em seus lábios de um amor demasiadamente esperado. O sentimento refinado. O encontro inevitável. O gozo escancarado e perplexo. A vaidade do amante é um paradoxo ou um grande engano que sua mente desfaz diante do belo. Para o amante a carne é hilariante. O temor é aspecto ligeiro. É o retorno perfeito do que sempre soube ofertar fazendo entender simplório. Testemunha exata de um sentimento de tresloucada carência...

Karinne Santiago

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente…

E só então a gente poderá amar, de novo.

( Martha Medeiros)


...Estranho... hoje tenho pesadelos com o seu olhar...todo aquele sentimento, hoje, é oco como o silêncio, lugar onde não ecoam sons, vozes, uivo, desalento...nada...nada de espécie alguma. Nem de alegria nem dor. Nem de raiva, rancor ou qualquer coisa assim que ao menos me desse algum tipo de energia...rastro de pólvora, mas cordão da bomba molhado...Te cumprimentaria por educação num aceno ligeiro...guardei tudo que ganhei numa caixa que na etiqueta não consegui escrever nada...Hoje, seu lugar é ali...lá no alto...com as malas...

Karinne Santiago

DESVENDA-ME


Desvenda-me

Cerra-me os olhos com as palmas das suas mãos morenas. Aqueça-me em seu calor perturbador dos meus sonhos. Sinta-me frágil, adocicada e viva. Na contagiante euforia da entrega. Percorra-me minuciosamente em silêncio ofegante. Busque-me selvagem e indecente. Conforta-me nociva e aparente. Proteja-me da ira e da inveja da nossa nudez. Encare-me em ousadia generosa. Desperte-me pulsões sem gentilezas. Morda-me voraz e loucamente. Arranque-me vestes, receios, dores e sussurros.

Desvenda-me

Aperte-me contra seu corpo moreno, seus pêlos negros e de tons cinza. Entrega-me a mulher que ofusquei. E o tempo contribuiu algoz dos meus planos. Transporte-me elegantemente nesta dança a sós. Construa-me anjo ou meretriz. Disfarça-me da injúria imprudente de um coração ausente. Perdoa-me as fantasias desfeitas. Silencia-me fantasmas e prantos. Reconduza-me suave e em falsa inocência. Perturba-me desta quietude certa. Rouba-me para tudo que sempre na distância fomos e que de perto se limitou melindrosa vontade do acerto.

Karinne Santiago

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Corpo Nu


Andar nu não é somente despir o corpo. É acima de tudo reconfortar-se no vazio. No vazio anterior onde ali cintilava o olhar severo da vergonha, o tom inquisidor da censura, o descompasso do medo e inclusive, a curiosidade e avidez do desejo. Cada gesto em nova liberdade numa cadência silenciosa da carne. Ventre milagroso gerador de vida. Pele aromatizada de um frescor engarrafado numa contraditória versão olfativa. O corpo nu inspira o amante em condecorada libido, o poeta desavisado colecionador de rimas, o artista caçador do belo. O corpo nu não tem o que esconder. O exílio da aparência. Sinais do tempo, cicatrizes de uma história, o óbvio convincente. Seja de riso ou lágrimas. Amarguras e repressão. O corpo nu jamais é somente um corpo nu.

Karinne Santiago